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A Barreira Invisível

Chegada a Amsterdam

Texto de J. Rentes de Carvalho

Embora o tenha anotado já noutras ocasiões, repito-o aqui com mais detalhe: cheguei a Amsterdam vindo de Paris, ao fim da tarde de 24 de Março de 1956. Um sábado. De comboio, fumando alternadamente cachimbo e Gauloises. A poucas semanas de completar vinte e seis anos.

O comboio, ainda com locomotiva a vapor, era o transporte rápido desse tempo. Desse tempo também era o meu ar de existencialista blasé e o modo enfadado de apreciar a paisagem que, passada Bruxelas, se mostrava uma planura de desconcertante monotonia.

Bagagem trazia pouca: uma maleta e um saco, pois contava demorar-me quinze dias, no máximo três semanas. Um mês? Nem à força! E a ideia de que eventualmente poderia ficar mais tempo, se me tivesse ocorrido, tê-la-ia despachado para o reino das impossibilidades.

Paris era o sonho realizado, a cidade onde de alma e coração me sentia pertencer, me sentia feliz, por certo o lugar mais civilizado e excitante do planeta.

Fora de Paris havia a província, com os seus horrores e mesquinhices. Para lá da província havia o estrangeiro, com países soturnos como a Espanha ou o meu Portugal. O resto aparecia-me como as nações infiéis de antigamente: distante e desagradável, numa geografia onde os Países Baixos eram uma mancha diminuta cortada de águas.

A meio da tarde, cinzenta, o céu a prenunciar neve, o comboio parou em Rosendaal. Saíram dele duas ou três pessoas e não entrou ninguém, fora os polícias que vinham carimbar os passaportes e os douaniers a revistar as malas.

O único movimento no cais era o de um grandão de casaco branco, calça preta, cara apopléctica, que aos gritos de "Koffij! Koffij!" empurrava um carrinho onde fumegava uma cafeteira.

Comprei-lhe um café. O homem rosnou uma palavra que não compreendi e deve ter tomado a minha perplexidade como sinal de assentimento. Foi uma desilusão. Ao sair da cafeteira o líquido tinha a cor do café, mas na caneca (não era xícara, era mesmo caneca) onde eu, ignorante do costume, não dera conta que no fundo havia um bom gole de leite, transformara-se numa mixórdia intragável.

Paguei e, mal-humorado, devolvi a caneca e o conteúdo. O grandão recolheu as moedas, contou-as e, sem me encarar, virou as costas, foi-se a apregoar "Koffij! Koffij!" ao longo das carruagens.

Copio de um apontamento de então: Recordo a passagem de uma ponte sobre um rio largo, e logo imaginei que fosse o Reno, mas um companheiro de viagem desiludiu-me: era o Mosa Velho. Em Dordrecht apercebi uma torre. Em Rotterdam, no crepúsculo baço do fim da tarde de invernia, um paquete iluminado manobrava pesadamente a meio do rio.

Até à estação o comboio foi avançando a passo, dando-me tempo para examinar as varandas de madeira das traseiras das casas. Modestas, talvez pobres, mas arrumadinhas, quase todas com uma tina de folha de ferro, que por certo servia de banheira, pendurada ao lado da porta.

Entretanto começara a escurecer. De Haarlem recordo um telhado de fábrica, onde em letras de néon azul se via escrito HIN KOUSENFABRIEK N.V. Outra vez varandas, outra vez tinas. Subitamente, numa longa recta passou um moinho, e então ocorreu-me que imaginara o país semeado deles e apenas vira aquele.

Já em Amsterdam, o comboio parou num sinal. Aqui e além tremeluziam cartazes luminosos, provincianos no gosto e modestos nas dimensões para quem chegava de Paris. Mais varandas, mais tinas. O comboio avançou, parou de novo, agora a poucos metros da rua. Por instantes fui testemunha secreta e maravilhada do inesperado espectáculo público de dezenas de vidas que, simultaneamente, se desenrolavam por detrás das janelas fronteiras.

[...]

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