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Editorial

A História já cá canta

 

URGE DENUNCIAR! Este editorial contém plágios de nós próprios.

Para o Manuel Chaves e o GDCV

Eis o momento mais difícil. Depois de oito anos de editoriais, o que há para dizer? O que significaram a Periférica e o projecto que a antecedeu, o Eito Fora, na vida cultural do país? Que estruturas abalámos? Que hábitos rompemos? Que lastro deixámos?

Quando se nos impuseram estas páginas, habitantes das berças de onde vínhamos olhando o mundo, a Periférica parecia-nos ao mesmo tempo um desafio importante e mais um folguedo, coisa para fazer com uma perna às costas. Tínhamos a noção da importância de sermos bem sucedidos (sobretudo para o ego de um país pequenino, cobarde e comodista, permitam-nos a petulância) e desconfiávamos que o sucesso estava à mão de semear. Semear era, aliás, actividade que, rústicos, bem conhecíamos.

A ideia de criar uma revista de âmbito nacional foi deixada pelo Divino Espírito Santo no voice mail do telemóvel de um de nós. A gravação estava fraca, mas percebia-se que o Dito ardia no meio de umas giestas (não há sarças em Vilarelho). O fim de tarde era de pastorícia, como todos os outros. Não havia rede de telemóvel no cômoro onde o Escolhido se encontrava, pelo que só ao recolher as cabras teve conhecimento da mensagem que ficara no aparelho: «Tens de ir semear pelo país abaixo!» O recado não o abalou. A vida era feita de altos e baixos, como as serras que o rodeavam. Não era a primeira vez que ia trabalhar para fora. Chegara mesmo a emigrar uma saison para a Suíça. Mas o Divino no Nokia, apesar dos pés em carne viva, fez-se explicar melhor: «Tu e os teus tendes um exemplo para dar. Largai tudo, bens terrenos, mulheres e filhos e segui o que vos vai na alma.» Se a coisa dava para o melodrama — turpilóquio que aprendera com o projeccionista de cinema ambulante que ali levara o Música no Coração havia uns meses —, o assunto era grave. Tocou os sinos a rebate.

A Redacção acorreu: uns vinham de mungir as vacas; outros, calaceiros, de jogar a bisca lambida na taberna do Mó; o último veio de longe, da Regatinha, onde virava a água aos feijões. As primeiras horas da madrugada do dia seguinte apanharam-nos na galera do tractor em direcção a Espanha. Ao volante, o director, notoriamente carregado de bagaço. Havia que contratar um tipógrafo e, entre encomendar o serviço a um artífice de Lisboa, estragando a surpresa do que aí vinha, e subir a León, com o tractor bem lançado pela autovía das Rías Baixas, a escolha foi óbvia. Pelo caminho compraram-se alguns jornais, para perceber melhor o mundo onde nos iríamos meter (nas leituras éramos fiéis do mensário da Virgem Maria e d'A Voz de Trás-os-Montes, jornal feito à luz da boa escola oitocentista, como o Expresso bem percebeu quando o integrou na sua rede; os diários nacionais tinham pouca expressão e chegavam com atraso de quinze dias, se a mula não cismasse).

Contratado o impressor, regressou-se a Vilarelho. Pediu-se ao regedor que lesse para toda a população da aldeia, no largo da capela, a apresentação do projecto, a antevisão do mundo intelectual onde alguns de nós iriam passar a dar cartas. (O Mó não escondeu uma ponta de raiva pela perda de clientela.) As pessoas ouviram assombradas a descrição do que existia para lá da Padrela, a serra bem amada. A ideia de alguém deixar a lareira para entrar na Babilónia, em Sodoma e Gomorra, afligiu o pequeníssimo burgo. Foi declarado dia de pesar em Vilarelho. Vieram carpideiras das freguesias vizinhas. Choraram-se lágrimas torrenciais. Fomos dados como pré-mortos.


Mas não morremos, como se viu. O desafio foi vencido e o folguedo não parou. Mas tirou o país proveito da nossa aventura pela república das bananas? Não nos parece. Algo estava já podre no reino da vida parca e a putrefacção não parou. Não depusemos o pimba do trono dourado. Não fizemos aumentar o número de leitores e apreciadores de arte. Não varremos o provincianismo, a mediocracia e a imbecilidade para o caixote de lixo da história. Não levámos a imprensa a dar mais atenção aos livros, à "cultura". Não evitámos o entulho nas livrarias. Não depusemos as Margaridas dos tops. Não acabámos com a tv "generalista", máquina de enchouriçar cérebros. Nós, os cosmopolitas, não arranjámos mais assinantes para a New Yorker nem para a Granta (é certo que não tínhamos comissão). Nós, os periféricos — os que comprovávamos perante o país e o mundo que na província portuguesa não há apenas caciques e mau gosto, monumentália de rotunda e kitsch, folclore e tacanhez —, nem sequer alterámos os pressupostos para a escolha do poder local!

Não evitámos que a "cultura", na província (tirando as excepções que estragam a indignação da prosa), fosse planeada por idiotas que julgam serem todos os cidadãos seus semelhantes (e que, não raro, julgam acertadamente). Nem evitámos que a "cultura" da metrópole ficasse tantas vezes contentinha-da-silva e auto-satisfeita com as palmadinhas dos amigalhaços.

Significa isto que fracassámos? Sim, fomos derrotados em toda a linha? Digam-no, não sejam tímidos. Fomos destroçados como patéticos Quixotes? Fomos reduzidos à mesquinhez que tivemos a impertinência de querer vencer? Fomos esmagados como, digamos, moscas na merda?

Não, não fracassámos. Não trazíamos a revolução connosco. Dissemo-lo no primeiro número, convém não esquecer: «Não somos nenhuma nova escola estética, não vimos fazer nenhuma revolução literária ou artística.» E, repare-se, «não somos a salvação de Portugal.» Hélas!


O país, consciente de que era a nossa musa inspiradora (feia, porca e má, mas musa, ainda assim), não nos desiludiu, não nos mostrou uma faceta surpreendentemente civilizada — mas também não mexeu connosco. Pudemos insultá-lo convenientemente e não fomos presos. A revista foi, mais do que periférica, marginal. Marginal porque andou sempre nas margens dos interesses e do gosto massificado, como se propôs. Mas também marginal porque teve não raros momentos de verdadeira delinquência: uma percentagem significativa das páginas da revista foi dedicada a enxovalhar o país. Com boa gramática, é certo, mas com intencionalidade semelhante aos graffiti mais inconvenientes e ilegais. O país não tremeu — não se reviu no retrato. Era demasiado subtil.


Queríamos ser lidos, é certo. E, salvo erro, fomo-lo. A espaços chegou-nos notícia disso, pela mula do correio expresso.

Queríamos ser famosos — tivemos o nosso quinhão de glória, não podemos esconder.

Num período de vinte anos, queríamos arrecadar pelo menos três prémios Nobel — publicámos um, o Günter Grass. Estamos agora a treinar para os outros (daremos notícias).

Queríamos ganhar dinheiro — fodemo-nos.


Tiraram os pequenos, os pobres, os amadores, os periféricos proveito da nossa lição? Ainda é cedo para o saber. Mas resumamo-la, para que não seja esquecida. Quando alguém se propõe uma empreitada, deve, primeiro, perguntar-se se está à altura dela, e depois… avançar, de qualquer modo. Mas há condições, requisitos para que a insolência não seja ridícula. Requisitos como a exigência, o rigor, a autocrítica (muita autocrítica), a aprendizagem da ironia, o trabalho. Muito trabalho. O cepticismo, no que toca à bondade humana. O optimismo, no que toca à capacidade de vencer obstáculos (esta cláusula só se aplica a prodigiosos).

A Periférica acaba aqui. Já dissemos que foi decisão madura, colectiva, irreversível. Fazer uma boa Periférica exige talento, tempo, dedicação, atenção, treino — uma redacção em forma e altamente disponível. De todos os requisitos apenas nos sobra o talento. Mas é, cada vez mais, um talento destreinado, com um quotidiano avesso, a olhar noutras direcções. De resto, desde o início dissemos que não ficaríamos para sempre, que faríamos o que nos apetecesse. E o que nos apetece é acabar com a revista. Sem mágoa, nem nostalgia. Sem lamentos, nem acusações. Ninguém tem culpa do fim da Periférica — apenas nós e a nossa vontade de voltar a mudar de vida. Ver-nos-emos por aí.


E é tudo, caros leitores. Este foi o editorial que se impunha. De autocomprazimento, dirão uns pobres.

P.S. 1 – Por gratidão aos autores que publicámos e fizeram desta revista um singular caso editorial, não gostaríamos de reduzir a Periférica ao poucochinho que ficou dito atrás. Mas os elogios sobre o resto deixamo-los para a imprensa de referência nas próximas semanas.

P.S. 2 – Ficam-nos, admitamo-lo, duas mágoas: a de deixarmos por publicar muitos artistas plásticos bons e pouco conhecidos; e a de não termos encontrado a nova narrativa portuguesa. Mas aqui não tivemos toda a culpa, fizemos o nosso trabalho: separámos o trigo do joio no que nos foi enviado. Mandámos carradas de propostas para o lixo. No final, o que sobrava? Nem o que escrevemos.

[Capa]

relatório minoritário

Como prometemos, este não é um número revivalista. Nem um número especial. É só o último. Basicamente igual a todos os anteriores. Mas, por ser o último, permitimo-nos pôr de lado o jornalismo de entrevista e reportagem e deixar que a edição se espraiasse um pouco mais pelas imagens, pela pintura, pela fotografia, pela banda desenhada, pelo design, por aquilo que vem interessando crescentemente os editores cá da tasca.

A prosa literária, cremos, está bem representada, com textos do padrinho J. Rentes de Carvalho, de Maria do Rosário Pedreira e de Gonçalo M. Tavares. Reforça esta ala um utilíssimo manual para quem pretenda escrever o seu próprio romance Lobo Antunes.

Da produção da casa, além de um conto de J. Ferreira Borges, publicamos apenas os indispensáveis comentários de A Oeste Nada de Novo — tomados de assalto pelo inacompanhável Fernando Gouveia — e os Canhões de R. A. Araújo, a bem do orgulho pátrio.

Fica muito por publicar, claro, mas agora esperamos que os outros cumpram a sua obrigação. Por nós, passamos de voluntaristas a mercenários. Descansem, não pousaremos a pena — sempre que alguém abra os cordões à bolsa.

[Contracapa]