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Pulp Fiction

Livro roubado

Conto de Maria do Rosário Pedreira

— Surpreendida? — perguntou Raul, num tom que não escondia a sua ironia de sempre.

Clara olhou para ele fixamente e não teve como negar. Estava, de facto, surpreendida. Mais do que isso: perplexa. No momento em que fora chamada ao gabinete do director, imaginara todos os cenários possíveis, menos aquele. A verdade é que havia razões de sobra para estar ali: no quadro do jornal há quase vinte anos, Clara nunca se arriscara tanto, e eram de prever — os colegas mais próximos tinham-na avisado — consequências desagradáveis: reprimendas, sanções, a perda do lugar de editora, talvez até uma tentativa de rescisão do contrato ou um despedimento. Mas aquilo não.

— Efectivamente — acabou por responder, perguntando-se logo a seguir de que forma o trabalho que Raul agora lhe propunha podia ser um castigo.

Merecia-o, claro. Pusera de novo o dedo na ferida — o que nela era, por norma, irresistível — mas, desta vez, tinha ido longe de mais: a pretexto de uma reportagem sobre as condições de vida de alguns emigrantes — tratados pelo país vizinho praticamente como escravos ou animais de carga —, desenterrara um fantasma que Raul considerava morto há muito e que, afinal, podia de certa forma comprometê-lo na carreira política que agora iniciava. Só que, ao contrário do director, Clara sabia que os fantasmas não morrem e aparecem para assombrar os vivos quando eles menos esperam; e, independentemente de estar consciente de que as suas descobertas podiam prejudicar alguém que lhe era muito próximo, nunca desistia de as revelar, tinha nisso um prazer quase mórbido. Olhou, por isso, o tabuleiro de papéis sobre a secretária de Raul e viu que a sua reportagem estava mesmo no cimo da pilha. Pensou, pela primeira vez desde que ali entrara, que era possível que o director ainda não a tivesse lido.

— E então? Vais fazer-nos esse favor, não é verdade?

Era uma pergunta, evidentemente, mas Clara ouviu-a como uma intimação: a palavra «favor» implicava, quase de certeza, uma paga, uma compensação. E isso queria dizer que o chefe, afinal, já devia estar a par de tudo e que, mesmo que a reportagem saísse amputada no jornal ou nem sequer chegasse a ser publicada, a verdade é que ele não lhe perdoava o amargo de boca que sentira ao ler os paralelos que Clara traçara entre a vida dos emigrantes que entrevistara dias antes e a dos operários da antiga fábrica do seu pai no tempo do fascismo. E certamente quereria alguma coisa em troca.

[...]

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