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Linhas cruzadas

Portugalego?

 

A pré-publicação, no número anterior, de um excerto do próximo livro do galego Manuel Rivas (Oeste) ocasionou, no blogue da Periférica e algures na Galiza, um debate sobre que sentido fará "traduzir" um texto galego para português. Em causa está o grau de proximidade que se deseja entre as duas línguas.

Na Galiza, o movimento reintegracionista defende uma grafia baseada no portugalego medieval ou uma aproximação à norma portuguesa; os oficialistas defendem uma norma própria para o galego, autónoma em relação ao castelhano, evidentemente, mas também em relação ao português.

Para dar continuidade ao tema, dois autores galegos (Xabier Cordal, oficialista, e Bernardo Penabade, reintegracionista) escrevem sobre o assunto nas próximas páginas. Santiago Jaureguizar faz o enquadramento. Por diferentes motivações, todos os textos foram originalmente escritos em português (ou portugalego).



As siamesas separadas

Texto de Santiago Jaureguizar

As relações entre a Galiza e Portugal assemelham-se a uma dessas cantigas de escárnio que compunham aqueles trovadores medievais que não saberiam dizer se eram galegos ou portugueses, porque simplesmente eram poetas e compunham versos no seu idioma; um idioma que era irrelevante ser chamado português ou galego, pois as suas preocupações (como reflectem as cantigas que compunham) eram bem outras. Agora sim, agora sabemos que temos que debater sobre se publicamos em galego ou em português. Na Galiza acontece todos os dias esta discussão e em Portugal começa a surgir a controvérsia. Em A Oeste Nada de Novo, o blogue desta revista, houve uma polémica — amável, como costumam vocês, mas polémica — a respeito da publicação de um excerto de Oeste, o novo romance do escritor galego Manuel Rivas. Fernando Venâncio solicitava que o fragmento aparecesse directamente na língua em que foi escrito, ao que Fernando Gouveia rebatia com a dificuldade que vocês, leitores, acham na nossa grafia. A nós, galegos, arrepia-nos nessa queixa a necessidade de ser feita. Se, para nós, o segredo do português esteve em adaptarmos o olhar aos vossos jotas e às vossas cedilhas, para vocês seria questão de fazerem ginástica com os nossos xis e com as terminações de algumas palavras galegas em –ción.

Somos já muitos os galegos que lemos literatura portuguesa e escutamos música portuguesa, mas no nosso país houve uma rejeição em relação ao português durante décadas. Tanto porque, atrasados como éramos nós, pareciam-nos atrasados os vizinhos do sul, como porque não compreendíamos a sua recusa em reconhecerem que o seu país e a sua cultura nasceram muito a norte de Guimarães. Advirto que, sendo uma questão que nos opõe, não vou sequer mencioná-la no resto do artigo; de facto, é uma questão sobre a qual não deveríamos voltar a discutir nas próximas décadas, até normalizarmos as nossas relações. Até aos anos 80, houve aquém-Minho um rancor que se foi dissolvendo graças a visões frívolas de grupos de rock de Vigo, como Siniestro Total, cantando Menos mal que nos queda Portugal, ou Os Ressentidos, que proclamavam Vigo, capital Lisboa.

Essas duas afirmações, cantadas com inconsciência, tinham por fundo o despertar da consciência da Galiza como nação e, por mor desse despertar, o olhar invejoso em relação a Portugal. O vosso país era visto naquela altura como o que a Galiza que poderia ter sido, tivéssemos nós a nossa Aljubarrota contra Castela. Na Idade Média a doutora Castela fez uma operação e dividiu essas duas siamesas que partilhavam língua e cultura, e Portugal acabou transformado num país próprio, enquanto a Galiza deu em triste região espanhola. Assim, quando uma parte dos galegos começou a ver-se como cidadãos de uma nação sem estado, encontrou em Portugal essa nação que eles poderiam ser. Isso conduziu a que na actualidade haja grande interesse na Galiza pelo português: além de comprar roupa na feira semanal de Vila Nova da Cerveira, contemplamos a obra de José Pedro Croft num edifício de Álvaro Siza, escutamos Madredeus, Dulce Pontes e Mariza, e lemos José Saramago e Lobo Antunes. Na minha cidade, Lugo, a 250 quilómetros da fortaleza de Valença do Minho, podem comprar-se as novidades de Mafalda Ivo Cruz, Pedro Rosa Mendes ou Nuno Júdice.

Mas a nossa atenção para convosco é ainda maior. O movimento reintegracionista, ligado politicamente ao nacionalismo galego, defende o uso de uma grafia baseada na escrita medieval portugalega, e mesmo nesse movimento há um sector muito significativo que aposta na norma portuguesa. Dispõem de portais na Internet, como o Portal Galego da Língua ou Novas da Galiza, e de emissoras locais de rádio. Adicionalmente, o português está presente no nosso país graças a editoras como Laiovento, Positivas ou Candeia, ou a escritores nessa língua, como João Guisam Seixas ou Raquel Miragaia.

Ao sul dessa margem do Minho soe acontecer que nos ouçam a falar galego e nos tomem por italianos, porque nos dicionários um galego continua a ser um "moço de frete" ou um parvo ao norte do vosso país. O que recebemos da população lusa é indiferença, quando não desprezo. Irrita-nos, por exemplo, o jeito em que Saramago teima em falar em espanhol quando o convidam à Galiza. Apesar dessa má educação, há já portugueses informados da existência de uma literatura própria na Galiza, para além de Rosalía de Castro, graças a conhecerem Manuel Rivas ou mesmo Méndez Ferrín e Suso de Toro. O olhar começa a mudar, nomeadamente no Norte; alegram-nos iniciativas como a de o congresso Correntes d’Escrita da Póvoa de Varzim convidar escritores galegos numa representação própria, independente da espanhola. No vosso Norte surgem também as traduções dos nossos autores novos (Xavier Queipo, Xabier López López ou Ramón Caride), promovidas por António Luís Catarino na Editora Deriva (Porto) ou Luís Mendonça, que acaba de publicar um livro de Fran Alonso traduzido directamente do galego (Edições Éterogémeas, Espinho). Catarino constata um «certo divórcio da parte portuguesa a respeito dos galegos, falta conhecer a nova literatura galega. Há uma ideia estranha da literatura galega actual, porque há uma ideia rural do galeguismo. A literatura galega é cosmopolita e passa por um bom momento que é negado». Partilha a sua opinião o jornalista portuense José Viale Moutinho, que aponta que «para um português, escritor galego é Cela ou talvez Torrente Ballester», dois galegos que se encontram fora do nosso sistema literário por terem escrito em espanhol. «Os galegos são lidos sem se reparar que escrevem em galego e muitas das vezes os tradutores usam as edições em espanhol», denuncia ele.

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Ocupar o lugar

Texto de Xabier Cordal

Esta é a cena: um escritor galego (escritor galego é aquel que escreve em língua galega) acomoda-se para redigir um artigo em português. Foi-lhe encargado certo trabalho que paira entre a divulgação e a Teologia, escola Ratzinger. Eis o seu contexto, ainda que ele possa imaginar que o artigo será lido, por acaso e com um bocadinho de sorte, na sua amada aldeia nortenha (nós diríamos: ao Sul) dos vinte espigueiros, dos vinte canastros (nós diríamos: hórreos, cabozos) esculpidos sobre o granito, antigos e introvertidos como o granito. Ou na praia aberta de Esposende, ou nos pincéis de socalco da Régua, e se calhar mais longe. Não; escrevo na casa, em Chamoso, nisso que o Império espanhol decidiu alcunhar "província de Lugo" e que apenas existe no seu pesadelo borbónico, mal copiado da França. Tenho o Porto Editora à mão. A minha língua não está tranquila, nunca.

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Galego-Português no século XXI

O nosso tesouro colectivo

Texto de Bernardo Penabade

pesar da nossa proximidade geográfica, a portugueses e galegos não nos resulta fácil o entendimento em questões linguísticas. Falamos variedades da mesma língua, mas os nossos respectivos contextos sociais são bem diferentes. Vós, portugueses, nascestes num país definido, representado nos mapas pendurados nas paredes de todas as vossas escolas e bem visíveis desde o primeiro dia em que entrastes nelas; as vossas famílias educaram-vos desde o berço na língua portuguesa, a mesma em que aprendestes a ler e escrever nas escolas. Assim foi feito com naturalidade e ninguém questionou esse estado de coisas, porque entre vós não existe nenhum factor externo a interferir.

Na Galiza o panorama é bem mais complexo. [...]

Dossier completo na edição em papel...

[Fotografia do arquivo de El Progreso]