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Manuel António Pina

Entrevista de Sarah Adamopoulos | Fotografias de Guilherme Fonseca

Há qualquer coisa nele que quer transformar-se em palavras. Mas quais? Sem quais? Com quais? A poesia também serve para responder a isso: com que palavras e sem que palavras se faz o poema. Porque se já não é possível dizer mais nada, a verdade é que também não é possível ficar calado. Há uma multidão de vozes que impede o silêncio. Ainda assim, Manuel António Pina pensa que a poesia goza de um injustificado prestígio.


Para que serve a poesia?

Posso talvez perguntar-me para que me serve a mim. Pode até servir para segurar a perna da mesa. As respostas que encontro têm tendência a ser literárias também. Mas não quero dramatizar muito e a verdade é que acho que passava bem sem a poesia. Quer dizer, não passava bem, mas passava. Se calhar era só um bocado mais infeliz. Não sou capaz de escrever poesia sem dramatizar, sem ter necessidade disso. Por isso, por estes dias (e desde que publiquei o último livro, aliás) não tenho escrito nada, ou quase nada. O Eugénio de Andrade diz que quando acaba de escrever um livro fica em pousio, como a terra. Eu também fico em pousio. A certa altura começo a sentir um certo incómodo, e a poesia acaba por servir, e muito, para responder a esse incómodo.

O Jorge Luis Borges dizia que sentia remorsos quando não escrevia, ou quando estava muito tempo sem escrever. Eu não sinto remorsos, sinto essa incomodidade. Escrever poesia serve-me, não para estar, mas para ir estando mais ou menos bem comigo mesmo e com o mundo. Eu trabalho muito as coisas que escrevo, e também a organização dos livros, embora a regra seja não haver regra. Talvez por isso, quando um livro está acabado, há uma sensação de felicidade, de délivrance — eu gosto muito desta palavra que tem mais a ver com parto.

No outro dia estava a falar com o Gastão Cruz e ele dizia que no primeiro livro dele deitou muitas coisas fora. Eu era incapaz de fazer isso, é raro voltar a ler o que já escrevi. Quando publiquei a Poesia Reunida [Assírio & Alvim, 2001] fi-lo, mas fiz apenas um ou dois toques muito pequeninos, quase imperceptíveis, uma troca de um artigo definido por um artigo indefinido, ou qualquer coisa relacionada com a pontuação. É o máximo que faço, essas coisas muito pequenas. Tenho um certo pudor em mexer naquilo que fiz anteriormente. Porquê? Porque é uma coisa que passou a ter uma existência própria, com a qual posso ter uma relação mais ou menos íntima. Enquanto não publico ando numa guerra com as páginas pares e ímpares. Fiz poemas de propósito para estarem em determinado sítio dos livros. Por exemplo, quando um poema é um bocadinho longo, e ocupa mais do que uma página, eu tenho uma preocupação enorme em que o poema comece numa página par [plano da esquerda] e acabe numa página ímpar [plano da direita]. Há uma respiração que é preciso ter em conta.

Isso foi certamente adquirido com o jornalismo — foi durante muitos anos jornalista...

Se calhar. Nunca tinha pensado nisso, é curioso.

Gosta portanto que o poema fique no plano, que não se abstraia das características do livro e de quem o lê.

Sim, gosto que o poema fique no plano, no plano aberto. Isso implica que frequentemente tenha de arranjar poemas para empurrarem outros. É que às vezes não tenho poemas para as páginas ímpares, ou então os que tenho não se adequam. Um poema de página ímpar é um poema de muita responsabilidade. Enquanto um livro não é publicado tenho uma relação muito íntima com os meus poemas. E às vezes é uma relação insuportável, porque é permanente, é obsessiva. Mas depois de estar publicado, é a grande libertação. Esqueço-me dos livros. Tenho, talvez por isso, oferecido uma resistência enorme a reeditar algumas coisas. Repare: eu sei que foram escritas por mim, essas coisas, mas tenho ao mesmo tempo uma relação de estranheza com elas. São coisas que não me pertencem. Respeito-as como se tivessem sido escritas por outra pessoa. Há um ensaio do Eliot, que se chama "As Três Vozes da Poesia", em que ele fala dos vários seres da escrita. E também fala nessa inquietação, nessa incomodidade. O Paul Claudel também diz uma coisa engraçada (eu só me lembro destas coisas porque são coisas que correspondem à minha própria experiência): «há qualquer coisa em mim que quer transformar-se em palavras». Que palavras? A escrita poética é também essa descoberta. Voltando ao Eliot: quando o poema chega ao livro ele diz: que descanse em paz. Ou seja, a publicação é uma forma de morte. O poema, tal como as pessoas, parte.

[...]

Entrevista completa na edição em papel...

[Fotografia de Guilherme Fonseca]


«A esfinge não é verdadeira. Verdadeiro é o medo. A esfinge é a forma que toma o nosso medo. Por isso, a verdade são os sentimentos. A verdade é a consciência da morte, a consciência da solidão, a consciência da desmesura e da irrelevância de tudo, da pequenez das coisas. O facto de ser ficção não torna aquilo menos verdadeiro, digamos que não há uma ditadura do real. Nesse sentido não há ficção.»