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Helena Matos

Entrevista de Fernando Gouveia e Rui Ângelo Araújo | Fotografias de Adão Conde

A publicação de uma revista como a Atlântico é, em nossa opinião, uma boa notícia. Situada num quadrante a que por comodidade chamamos direita, a revista transporta uma dose razoável de heterodoxia. Herança da directora, ela própria uma colunista heterodoxa, capaz de irritar a direita e a esquerda (ainda que mais esta última).

Os princípios editoriais da revista assentam num conjunto de valores liberais, e o formato inspira-se em diversas publicações inglesas e americanas. Com ela o debate político em Portugal fica claramente mais rico. Só por distracção ou empedernimento se achará o contrário.

Mas se o lançamento da Atlântico é o mote para esta entrevista, a verdade é que foi o perfil de Helena Matos, a sua coluna politicamente incorrecta no Público, a grande razão para a conversa numa esplanada da Gulbenkian. O debate também passa por aqui.


[...]

Ainda assim, mal surgiu, a Atlântico foi logo rotulada como sendo uma publicação de direita. Isso é um estigma, é uma medalha, ou o quê?

Eu fiz um trabalho há uns anos sobre o salazarismo em Portugal, e era muito curioso, porque a certa altura havia uma geração que tinha estado na revolta da República, ou os seus pais tinham estado em 1910 ali na Rotunda. Mas a pergunta se eram ou não republicanos continuou a ser feita durante anos a fio. Aliás, nós chegámos ao 25 de Abril de 1974 ainda com essa expendiosa questão de haver gente que ainda se apresentava como republicano, o que em 1974 era uma coisa de uma relevância política extraordinária... Muito sinceramente, quando ouço hoje essas questões — se é de direita, se é de esquerda —, lembro-me imenso desta coisa. Porque nós continuamos a carregar com uma imensa tralha histórica e então andamos sempre com esse acerto de questões atrás. E quanto à questão da esquerda e da direita, pensando que esta semana o PCP elogiou Estaline, esta revista então é claramente de direita.

Mas só por esse extremo?

Não. Mas continuarem-se a cantar loas ao Estaline, acho que só aqui e na Coreia do Norte! Porque mesmo os outros que cantam não dizem que cantam.

Mas para as vendas é mau ou é bom, a Atlântico ser classificada de direita?

Eu acho que as pessoas estão disponíveis para uma publicação que de alguma forma as surpreenda; acho que certas pessoas estão disponíveis para serem irritadas, para serem questionadas.

Por que é que acha isso? Pelo fenómeno dos blogues, por haver nos últimos tempos uma alteração até na própria imprensa, nas opiniões...?

Sim, mas não só. Também porque houve em Portugal nos anos sessenta e setenta, e até nos cinquenta, um fenómeno que tinha a ver com aquilo que se chamava a arrogância intelectual da esquerda, e que tinha sido nas décadas anteriores a arrogância intelectual da direita — estas coisas não surgem do nada.

Agora, eu acho que aquilo que para nós é de facto importante é a questão de defendermos a economia de mercado. Se isso é tido como um valor de direita... eu acho que não, porque de facto a direita não defende a economia de mercado — a direita, nessa concepção histórica e atávica, de maneira nenhuma defende uma economia de mercado, antes pelo contrário: é profundamente intervencionista, no caso dos fascismos, ou é profundamente assistencialista, no caso da tradição da Democracia Cristã. Se quiser, isto tem mais a ver com a impiedade daquilo que foi sempre muito malvisto em Portugal, pela esquerda e pela direita, que é o capitalismo. É muito curioso: há muita gente que vem das elites do marcelismo e que acabou reciclada em partidos de esquerda — estou a pensar no caso da Eng.ª Lourdes Pintassilgo, estou a pensar no ex-ministro Veiga Simão, estou a pensar no caso do próprio Prof. Adriano Moreira ou do Prof. Freitas do Amaral —; são pessoas que teriam feito perfeitamente a sua vida dentro do regime marcelista, com aquela espécie de "democracia tutelada", porque de facto tinham uma visão muito intervencionista da economia, uma visão do pobrezinho que é preciso ajudar, e aliás esta visão assistencialisto-cristã que caracteriza alguns autoritarismos de direita — estou a falar de autoritarismo, não estou a falar de fascismo — cose-se muito bem com a visão de uma certa esquerda que hoje faz a apologia dos valores de solidariedade, é quase uma reciclagem... O que continua a parecer mal em Portugal é uma pessoa dizer que defende o capitalismo, isso é que não vem nada a calhar.

Continua a parecer mal, mas há um espaço maior para poder dizer isso e ser lido.

Pois, já há um espaço maior para se poder dizer isso sem se passar por agente da CIA, isso eu acho que sim...

[...]

Entrevista completa na edição em papel...

[Fotografia de Adão Conde]


«Não sei qual será o futuro desta revista, mas tenho a certeza que quando se falar dentro de alguns anos sobre questões das ideias políticas em Portugal se vai ter de falar da Atlântico