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Editorial |
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A necessidade de um artigoDesde o dia, há mais de uma década, em que uma trovoada decidiu arruinar-me o televisor, alardeei orgulhoso a expressão que atestava a minha ignorância intencional da coisa terrena e um ascetismo ao alcance de poucos — Desculpe, não vejo televisão. Os factos mundanos que corriam de boca em boca chegavam ao pé de mim e estacavam — Desculpe, não vejo televisão. Dois dias antes alguém movera os maxilares para falar, não sei que acidente tinha ocorrido, evoluções aconteceram no caso da semana, mas para desilusão ou espanto do meu interlocutor — Desculpe, não vejo televisão. Se apenas existia aquilo que a televisão propagava, então o real estava-me vedado. Não ver televisão passou a ser aquilo que me distinguia do cidadão comum. Eu era um marciano, mas um marciano por militância. Seria verde e inaudito, mas os genes estavam isentos de responsabilidade, exactamente como na transfiguração de Michael Jackson. Se em boa parte dos casos o absentismo hertziano me fornecia a desculpa certa para a debandada, noutros dava ao interlocutor uma vantagem que, não só o alcandorava ao ponto alto dum súbito magistério, como lhe permitia requintes de algoz chinês na forma circular e sem urgências como me informava do pé desmanchado do famoso de serviço ou de novas evidências sobre o gay da época. Eu não era deste mundo e tinha de ser (tele)evangelizado. Claro que havia um complemento a esta renúncia. A par do slogan que demonstrava a minha resistência intelectual — Desculpe, não vejo televisão eu expunha outros sintomas para corroborar a minha alienigenidade: livros e jornais. À hora da tv (e noutras, a bem dizer) também eu queimava as minhas pestanas. Também eu metia os olhos em vidas alheias, me emocionava com as misérias humanas. Mas o país, em horário nobre, vegetava, nutrindo-se dos destaques do dia. Eu enchia o peito de ar e atacava os clássicos de sempre. Em horas de lazer havia quem passeasse cães ou consortes — eu passeava livros. Quem se ajeitasse à sombra de tílias para bebericar (eu lia), enquadrasse no pára-brisas paisagens de namorar (eu lia). Nas sagradas refeições, à mesa dos outros havia comensais — na minha... jornais. Se no fim da bóia era prática da casa mais um copo para o caminho, eu, calhando ter o Público, avançava para mais um editorial. Na hora do digestivo eu — Era um Grants, faz favor. (Aqui contemporizava.) Uma década sem televisão fez de mim um homem mais velho — mas nem por isso mais sábio. Repare-se: num Junho especialmente quente, os telespectadores, os teledependentes, aqueles que o Big Brother verga à sua influência nefasta, os de cérebro lavado, passeiam-se pelas esplanadas, mergulham nas piscinas, nas praias, saem à noite, bebem cerveja fria e comem gelados. Nós, os cultos, afogamo-nos em suor — e lágrimas — porque nos lembrámos um dia de fazer uma revista alternativa à mediocridade. Nós, os inteligentes, temos uma edição para fechar e, por isso, encerramo-nos em casa dia e noite a fazer revistas. Nós, os doutos, abdicamos de mergulhos e esplanadas para fechar mais uma página, mergulhar na revisão de mais um texto. Eu, o idiota, o tv clean, colo o rosto à vidraça a ver o carpe diem dos outros, os imbecis viciados em tv.
— Desculpe, não vejo a televisão!
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