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Pulp Fiction

Recomeço

Texto de Rui Ângelo Araújo | Fotografia de Bruno Espadana

there's nothing i'd love to do more
than spare you from that burden
(...)
but you are gonna have to find out for yourself

Björk

Há tardes assim, raros momentos de epifania. Depois do almoço, um sol generoso de intenções acompanha-te ao longo do canal. Nada a dizer (tudo a dizer) sobre os barcos silenciosos e a cota elevada a que navegam. O mundo às avessas. A Holanda tem destas coisas, não as podes ignorar. Mulheres lindas à janela e coffee shops. Lugares eufemísticos, sexo, drogas e canais. Em Roma visita-se o Papa. E um quarto de hotel junto ao Rijksmuseum. Nada te interessa assim tanto. Tudo te angustia assim tanto.

Meu Deus, que vocação para o desassossego.

O canal e a estrada seguem para oeste. A estrada, se o desejares, passa em Haarlem, e o céu escurece. Não temas, o vento também faz parte. No porto há um cais de passageiros e um ferryboat da linha escandinava. E há um banco de ferro voltado para uma estátua ao marinheiro, ou coisa assim. O marinheiro com gaivotas e merda na cabeça está ao abrigo das tempestades, mas não parece contente. Tu, pelo contrário, reconcilias-te com o céu carregado, tão baixo que por vezes esconde os últimos pisos do ferry. É estranho. Um tempo assim costumava deprimir-te, mas apetece-te cantar melodias grossas de marinheiros. E rumar ainda mais a norte.

Recordo outras tardes de igual beatitude. Contra o vento e a chuva, rosto descoberto, passo firme. Ascensão a montes solitários e lugares íntimos da alma. Talvez um pouco tocado pelo whisky, mas quem está ali para o notar? Os cães de pastorícia estranham-te a súbita coragem, de relance. Em dias destes não mereces um latido, mas uma prece ou uma ovação, depende de quem olha. Do meu ponto de vista, concedo-te a dúvida, mas é tarde e há que voltar para o hotel.

Deves escolher a banda sonora, há demasiado tempo que não ouves música. Na rádio, apropriadamente, passa qualquer coisa da Björk. Mera coincidência ou alguém anda a mexer os cordelinhos. Enfim, talvez o ferryboat não estivesse no porto a despropósito e os céus cedessem um pequeno anjo de bom grado. Talvez tudo tenha uma ligação elementar, meu caro. But you are gonna have to find out for yourself, repete.

[...]

Rubrica completa na edição em papel...

[Fotografia de Bruno Espadana]