Por fim conseguiste que odiasse o blues
Poemas de Javier Cánaves
Os hotéis
Sinto saudades dos hotéis, o sentimento apátrida
de um quarto impessoal,
de um armário vazio com três portas.
Os seus corredores longuíssimos, sem ninguém a certas horas,
como as auto-estradas quando nos escapamos e pensamos
no corpo adormecido que já não temos de abraçar,
na vida que começa com novo ânimo.
Sinto saudades da nostalgia do lar
que à distância adquire o brilho de um tesouro
que não soubemos ver quando foi nosso,
quando tudo era ordem e passado.
As risadas de bêbedos que tropeçam nos móveis,
as molas de um colchão, a tosse de um viajante
que fuma enquanto pensa se regressa.
O que seria do mundo sem hotéis?
Os corpos desfrutam-se de forma diferente,
com a intensidade daquele que não ignora
que tudo definha e que os dados
rolam só uma vez e depois é tarde.
Se o final há-de ser numa cama,
não quero que essa cama seja a de uma casa
assente em mentiras e renúncias,
exposto à piedade de uma família.
Prefiro o desenraizamento de um hotel,
as suas paredes distantes, impassíveis,
habituadas a ver como iguais os seus hóspedes,
curadas de promessas sem futuro.
Se algum dia me perder, procurai-me nos hotéis.
Nada seduz tanto
como a sua intimidade desenxabida.
Amanhã lá veremos
Ligas-me dos lavabos de um antro nos subúrbios
para dizer que me amas,
e a tua voz tem o lastro da tequila e do ácido,
da necessidade desamparada.
Comentas não sei o quê de moscas mortas,
de tipos perigosos que te procuram
e pedes que te diga o muito que te amo.
São três da tarde de um domingo com luz
e camisas estendidas. Penso
que é estranho estarmos juntos, que me ligues,
que para ti também seja domingo.
Penso nas últimas semanas,
no seu frio de Inverno incorrigível,
e o obstinado empenho que mostraste
em salvar a nossa união
comove-me. O que não entendo
é a fatalidade que te governa,
que te afasta de mim, de ti,
do que é verdadeiro e que tu sempre celebras.
Mas que importa isso. Tenho
todo o domingo para mim, e esperam-me
os meus livros e a minha música, as viagens que não fiz,
as mulheres que só conheci
de passagem ou de longe, ou nalgum filme,
as que sempre terão o brilho do alheio.
E, para além disso, menti-te:
entendo
— melhor do que o que pensas —
esta necessidade de te afastares do mundo,
de apostar numa carta o presente cercado,
de flutuar num limbo sem pressas e estrangeiro.
Aproveita a fuga.
Escarnece da ditadura do medo e do correcto.
Não penses mais em mim, que importa que te ame.
Lá veremos amanhã
se há um céu capaz de nos cobiçar.
Tradução de RUI ÂNGELO ARAÚJO.
Rubrica completa na edição em papel...
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