Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.

Nos limites do silêncio

Seis poemas

de Martín López-Vega

Equação
11-M

Ensinam-nos a resolver
pequenos problemas matemáticos:
o coração dividido por dois,
a melancolia que tende para infinito,
as permutações da tristeza e da alegria,
a raiz quadrada do desassossego.

Também algum teorema
de aparência estranha
mas facilmente demonstrável:
a felicidade = o único
que ao partilhar-se se multiplica.

Mas, qual é a fórmula do sentido?
Qual é o resultado da operação
que inclui a vida perdida,
a viagem quebrada pela dinamite?

O Grande Calculador cala-se.

E uma pergunta mais:
se digo que o mundo continua a ser,
apesar de tudo, belo,
será que fiz mal as contas?

Carta a um arqueólogo

Dividirás o solo em parcelas, numerarás
cada metro de terra pacientemente removida,
cada centímetro, seleccionarás os restos:
fragmentos para reconstruir uma idade
da que nada sabes, um tempo
no qual te moves às apalpadelas, que no fundo
pouco te importa — ainda que acredites, em vão,
que reconstruir esse puzzle, que achar um significado
para esses pedaços pode revelar-te algo do sentido
do teu próprio tempo, da tua própria vida:
um espelho partido.
                       Escava quanto quiseres,
recolhe bocados de lama, imagina o desenho
dos muros entre os quais andámos, evoca
se quiseres
            uma noite em que o sonho não tenha caminhos
como foram as nossas vidas, o que procuramos.
Recolhe se assim o desejas os nossos ossos, procura
ao limpá-los com o pincel, ao acariciá-los,
as carícias que nós sentimos na pele — mas essa
não poderás vê-la, tocá-la.
                       E se encontrares, entre pedra
e lama e água parada
                       uma entoação dubitativa
ao falar uma língua estranha; um olhar de amor
que errou o disparo — flecha lançada por um atirador inexperiente;
o tacto dos nossos dedos ao acariciar
as primeiras fibras da primavera,
essas coisas, deixa-as;
                       não te ajudarão a reconstruir o corpo
do Tempo — esse dinossauro robusto e implacável.
Colecciona pedras, amontoa ossos, divide o solo
em secções simétricas: não encontrarás nada que importe.
Tudo o que importa desaparece. Não está debaixo da terra.
Também tu procuras em vão, como nós procuramos.

Tradução de FERNANDO GOUVEIA.

Rubrica completa na edição em papel...