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Nos limites do silêncio

Autópsia

Poemas de José Luis Piquero

Quarto 341

A morte esteve a fazer o seu trabalho
neste corpo. Deitados muito juntos,
o odor dos dois invade o quarto.

E são sinais a campainha, a garrafa de água,
o casaco caído da visita, a maçaneta da porta,
de alguma coisa falsa, apenas duradoura
nesta eternidade real da agonia.

Decoração casual de coisas práticas
para uma morte nunca calculada,
como todas as mortes.

(Recordo-o rindo num casamento,
muito tempo antes desta pasmada eternidade.
A morte já pisava sobre folhas secas
muito próximo de qualquer um de nós.
Mas a música estava muito alta.)

Mecânica nacional

Deprimem-me os tipos que esperam num carro,
o cotovelo necessário sobre a janela
e a rádio ofendendo com a canção da moda.

Ficam bem nas tardes de sol, e os verões,
por extensão, são seus. Quando cruzas
a rua vazia e te oprimem
a rua, o sol, o dia que te vive,
aí estão eles, fumando descontraídos,
donos do sol, do dia, da rua e do carro.

Não me agradam.
                       Que namoradas que não chegam
ou que esposas com carteiras ou que amigos
esperam sempre? Noutras circunstâncias
de lugar e de tempo fariam um bom quadro
de Hopper. Mas não:
ainda que se os veja sós, simbolizam
a companhia; sempre tem recompensa
a sua paciência satisfeita.

Será isso no fundo, uma traição
pequena, involuntária, como um medo doméstico:
a culpa de não ser mais do que hábito.

Tradução de F. GOUVEIA e RUI A. ARAÚJO.

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