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Editorial

Uma revista para imbecis

 

O niilismo e o desinteresse não dão bons editoriais, a imbecilidade sim. Mas a imbecilidade não lê a Periférica. O que significa que os bons velhos editoriais da revista foram excelentes exercícios de estilo — mas péssima prática doutrinal. A indignação e o proselitismo são temperos aprazíveis para a prosa, mas na verdade a prosa só aproveita, quando aproveita, aos convertidos. Não pela mensagem, claro, mas pela retórica enquanto poesia, música, ribombar que emociona mais pela forma da semântica do que pelo conteúdo do parágrafo.

Diz-se da Periférica que é lida nalguns meios intelectuais do país — e nós, como adolescentes, deixamo-lo repetir, quando deveríamos estar a vendê-la à entrada dos shoppings e do metro. A quem interessa um editorial sobre a estupidez dos portugueses? Àqueles que, sendo a excepção, têm a capacidade de entender o texto e concordar (ou não) com o diagnóstico? Que proveito há em lamentar, num par de páginas com boneco ao lado, a falta de curiosidade intelectual e a indolência literária da classe média nacional e concluir no papel impresso que isso é nefasto para o desenvolvimento do país, se os únicos leitores da lamúria são, precisamente, os intelectualmente curiosos (e ociosos, claro)?

Dizer que se despreza o «maralhal pimba» soa bem e toca uma corda aos incomodados com a performance dos Emanuéis da pátria — mas não despenteia um cabelo à leitora da Margarida Rebelo Pinto ou amolga sequer a couraça do universitário amante de Fernando Rocha. Apontar aos berros, para épater le bourgeois, a culpa dos poderes e dos poderosos, conspirativos e déspotas, faz corar de excitação os saudosos da revolução — mas não dá mais democracia a um país que a tem e não sabe o que fazer com ela. Deplorar, enfim, o pântano cultural do país só serve para lembrar «oh, que alto é o meu castelo», acompanhando a récita com a lima das unhas.

Os diagnósticos, as lamentações, os ensaios de José Gil, a coluna de Pulido Valente, o blogue de Pacheco Pereira, a pluma caprichosa de Clara Ferreira Alves, os múltiplos editoriais do Público, até o olho vivo de Cintra Torres, nada disto aproveita aos portugueses — e devia. Os leitores habituais destas prédicas, para lá de divergências de pormenor ou de enquadramento, tiram prazer intelectual do exercício — mas dispensam o sermão para uso pessoal. Se voltam sempre aos autores é apenas para reforçar a identidade, o sentimento de pertença, renovar as quotas do clube. Um amante de jazz não recusa um standard.

A nação que lê editoriais cabe num avião fretado. A qualquer altura emigra. Enquanto não o faz... escreve e lê editoriais. Os outros, os que tirariam proveito do retrato, andam demasiado ocupados a posar. Não lhes são exigidos mínimos olímpicos para pertencer à grande turba. Não é preciso ler o Público para ser cidadão português, para exercer a cidadania com estóica resistência às letras. Frugal uso da matemática. Higiénica distância da iniciativa. Com à-vontade no costume da modorra, no fado da irresponsabilidade e, por que não?, no know-how da corrupçãozinha. Ser português é dar garantias de continuidade, abraçar o dever altamente patriótico de deixar tudo como está, se possível pior. Estes peculiares deveres e garantias nacionais mantêm-se quando os melhores são escolhidos para funções, transitórias ou não, de poder. Local, intermédio ou central. Apenas acresce a incumbência, proveniente do perfil de primus inter pares dos eleitos, de ignorar mais ostensivamente conselhos e reprimendas, sejam eles do Expresso.

É este o quintal de que todos os editoriais falam. E é este o viveiro de minhocas que seria preciso mudar para mudar Portugal. O resto é literatura ou o lado lúdico da política.

Como qualquer editorial que se preze, os nossos belos textos tiveram o seu murmúrio, o seu acenar de cabeça. Serviram de programa a uma ou outra tertúlia, mais ou menos obscura. Mas não mudaram uma linha à constituição informal do país. Aquela — menos literária, é certo, menos grandiloquente — que realmente vigora. O mundo dos editoriais é um lugar de prosa veemente — e o mais reservado dos grémios literários. Um bom editorial ocupa hoje o lugar do soneto. É lido, medido e recitado nas cortes educadas — e convenientemente ignorado no fascinante mundo plebeu. Nenhum imbecil a precisar de correctivo lê, com proveito, editoriais num jornal de referência (eufemismo para "jornal de lazer" das classes instruídas). Nenhum imbecil a precisar de correctivo lê os editoriais duma revista literária (bem, esta não é lei universal, não exageremos).

Os melhores editoriais são como brindes numa ceia de alta-roda, mas nada mudam. Os editoriais da Periférica, para valerem alguma coisa, não deviam estar na Periférica. Ou a Periférica não devia estar... nas suas mãos, leitor. Por isso, enquanto não vamos de ardinas apregoar para o Bolhão ou para o Colombo, let's seize the day. Permitam-nos que, por momentos, não nos baixemos para olhar o país. Não é burguesismo. É tédio. Niilismo. Desinteresse. O niilismo e o desinteresse não dão bons editoriais. Apenas conforto. Satisfação. Alegria de viver.

A bem da boa disposição niilista, este não foi mais um editorial evangelizante da Periférica. Fizemos uma pausa na indignação. Talvez no próximo número possamos ser proselitistas consequentes e avisar nas parangonas: «Revista só para imbecis — distribuída com o 24 horas

Oops! No próximo mês a Periférica celebra três anos de vida pública.

[Capa]