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Pulp Fiction

Os cinco elementos

Conto de José Ferreira Borges

Entro no correio. Cumprimento a velhota que, desde há alguns anos, se instalou num dos recantos. «Bom dia, minha senhora, como está?» «Bom dia. Cá vou andando. Enquanto O de lá de cima quiser.» Esta saudação é, por assim dizer, obrigatória. Fica-nos a paz do dever cumprido. Enviamos a correspondência, acreditando que nos será devolvida, em troca, a felicidade. A velha escolheu o recinto para fazer meia. Olha de alto a baixo quem entra, reclamando a cortesia. Ninguém se esquece. A não ser o forasteiro que tal costume ignora. Entrego a carta, endereçada a mim próprio, e peço correio azul. «Chegará amanhã?», pergunto. «Se correr tudo normal, sim», responde-me o funcionário. «Se correr tudo azul», corrijo sem graça. Ouço a fazedora de meia a protestar que nunca mais é sábado. Talvez haja sentido no desabafo: os sábados são para o descanso, as meias não.

Entro no café. Opto pela mesa mais discreta. Observo a rua. Medito do cimo desta velhice encurvada. Eis acolá o herdeiro da viúva Júlia. Pois é: do ex-presidente conheci a bengala e a filha. «Apalpe-a, se quiser», lembro-me de lhe ouvir dizer. Então, maravilhado, apreciei a textura barroca da bengala que ele me passou para as mãos. Júlia namorava, mais além, com gracinhas inocentes, o futuro esposo. Devolvi o amparo ao meu interlocutor, e ele aproveitou-o para apontar: «Olhe os pombinhos!» A miúda despedia-se, com um beijo dado na palma da dextra e soprado em direcção ao moço. «É o que lhe eu digo», acrescentou o ex-presidente, «daqui por um ano já serei avô!» E a antecipação do neto comoveu-o. Se Júlia fosse minha, a bengala também o seria. Mas não lamento o voto de castidade. Talvez, de contrário, eu já tivesse morrido, sem poder ver daqui o neto do ex-presidente com uma carta na mão.

O café encontrava-se estranhamente vazio. Noto, porém, que o corcovado para lá se dirige. O seu corpo faz um ângulo recto, e o bordão a que se apoia permite completar, ao ritmo dos passos, quadrados imperfeitos. O dono do café parecia maldisposto. Seja como for, nunca desconfiará que lhe compro os jornais pretéritos a fim de recortar avisos necrológicos. Pago dez cêntimos para colher em cada edição os rostos e os silêncios das páginas lúgubres. O número que abri agora traz várias fotografias. Gente que no-las deixou. Penso que os recortes de hoje serão suficientes para cobrir a terceira parede do meu quarto de suplência, ficando por preencher a do lado da janela. E, claro, o tecto. Esta noite vou lá dormir. Conservarei o espaço iluminado, como sempre quando ali repouso. Temo que no meio da escuridão os mortos se sintam ainda mais mortos, e isso me perturbe o sono. De luz acesa, o risco é menor.

Apanhou a moeda de dez cêntimos o homem que transportava um maço de jornais. Fui ao interior buscar o creme labial e, pela câmara de vigilância, notei que, depois de pousar o feixe sobre o balcão, o fulano se agachou sem artifício. Ergueu a moeda à altura dos olhos e não a depositou na caixa destinada a receber as esmolas para os leprosos. Das vinte e uma pessoas que pude já observar, sete enfiaram a moeda na ranhura, três devolveram-ma, quatro não deram por ela, e as restantes guardaram-na consigo. O tipo dos jornais pertence ao último grupo. Seria interessante esclarecer a relação que existe entre o local onde a moeda caiu e o destino que os clientes lhe dão. Quando, ao abrir a farmácia, lanço o metal, vejo-o cair nos sítios mais diversos. Desta vez a moeda ficou parcialmente escondida debaixo da vitrine. Mas o indivíduo foi perspicaz, e regressou a casa com os meus dez cêntimos.

Hoje o farmacêutico chegou com cinco minutos de atraso. Creio que atirou algo para o chão. O primeiro cliente não me era estranho de rosto. Levava jornais. Quando saiu da botica, notei-lhe um sorriso no lábio inflamado. Já o vi, em outras ocasiões, carregar notícias: sorrir é que nunca. Deste banco de vime constato que, no mundo monótono, todos os dias acontece uma coisa pela primeira vez. É a vantagem de gastar as horas num ofício parado que ajuda os outros a moverem-se. Ninguém actualmente ousaria caminhar descalço. O sapateiro faz metade do trabalho, eu faço a outra metade. Também o corcunda que há pouco passou de andar lentíssimo, como quem escuta o chão com os pés, consertava calçado. Não se casou com a Júlia porque não quis. Vem ali o filho dela! «Bom dia, minha senhora, como está?» «Bom dia. Cá vou andando. Enquanto O de lá de cima quiser.»