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Pulp Fiction |
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Do ofício*Textos de Rogelio Guedea | Ilustração de Rui Lúcio CarvalhoO escritor sem rostoO romancista tinha o hábito de discutir com o seu editor acerca de quão mal distribuída estava a riqueza no país, ou do muito que lhe doía a deterioração sofrida pela natureza nos últimos anos, ou mesmo da péssima concepção dos programas de literatura nas universidades públicas. No entanto, essa manhã, enquanto falavam precisamente dos prejuízos que trouxe o materialismo dialéctico, o editor sugeriu ao romancista algumas alterações ao seu último romance. Disse-lhe que não se alarmasse, que se tratava apenas de retoques sem importância, de modificações intranscendentes. Poucos dias depois, o romancista recebeu o manuscrito com as correcções e olhou-as à lupa, certificando-se de que, efectivamente, não lesavam o essencial. Só então as aceitou. Semanas depois — e sem qualquer palavra prévia —, voltou a receber o manuscrito com algumas modificações mais: tratava-se de algumas vírgulas, umas quantas preposições e umas ligeiríssimas alterações na sintaxe. O romancista voltou a olhar à lupa e, ainda que a contragosto, não teve mais do que aceitar que o editor não se enganava. Assim, o último romance do romancista foi passando pouco a pouco de uma massa de palavras informes, de
dequeísmos e acacianismos, de anacolutos e pleonasmos, de cacologias e solecismos, a um texto transparente e correcto,
no qual o escritor, como costuma acontecer, se sentiu estranho e só, como esses fantasmas que entram com os olhos
fechados numa cidade perdida.
* Título da responsabilidade da Redacção da Periférica.
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