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O Padrinho

Carta para Cees Nooteboom

Texto de J. Rentes de Carvalho | Ilustração de Alain Voss

Meu caro Cees,

É um sentimento curioso o de ler um livro no local onde se presume que o mesmo teve a sua gestação. A acreditar nas informações da empregada da York House, o romântico albergue da Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, eu ocupo desde ontem o mesmo quarto, durmo na mesma cama e respiro o mesmo ambiente que tu tão detalhadamente descreves em A história seguinte.

No andar de cima não se ouve agora o tumulto erótico que te perturbou, mas as traves do tecto têm realmente um aspecto artificial e os eléctricos passam dando a impressão de que vão descarrilar.

Ontem à tarde vagueei pela cidade tentando ser tu, tentando vê-la através dos teus olhos, isto é: os olhos do ex-professor de línguas clássicas com que no livro te disfarças. Em vão. A Lisboa, teatro da minha juventude, prendem-me raízes tão fundas que nela não consigo ser outro senão eu próprio. Tudo o que nela vejo é irremediavelmente filtrado pela recordação, pela emoção, pelo desespero de que jamais virei a saber se ao fugir de lá escapei ao meu destino, ou se os fados me obrigaram a partir, deixando-me a ilusão de que fugia.

[...]

Carta completa na edição em papel...

[ilustração de Alain Voss]