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Os 400 Golpes

Sexo mal-dito

Texto de Rui Bebiano | Ilustração de Francisco Legatheaux

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Por aqui, porém, as coisas arranjam-se de uma maneira bem mais simples. É provável que o mesmo se passe alhures, mas falo por nós. Em Portugal, ao nível do público, a regra é fazer de conta que as sexualidades em minoria não existem, sempre que falamos de figuras públicas daquelas que ficaram, ou que presumivelmente virão um dia a ficar, nos anais da memória histórica. Recordo-me, já não sei se no secundário se na faculdade, de ter ouvido algumas vagas insinuações a respeito da vida íntima de D. Sebastião. E, séculos adiante, de me ter constado qualquer coisa a respeito de António Botto, de João Vilaret e de Ary dos Santos. Não tivemos, infelizmente, o nosso Oscar Wilde, ou um Rimbaud de dentro de portas, e dos dandies caseiros nada consta de particularmente saliente, até ulteriores pesquisas, para além dos consabidos tiques vaidosos, embora presumivelmente másculos, de João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett. Preferimos recordar, com alguma cumplicidade, os arrimos viris de Camilo e os problemas pessoais que tão natural inclinação lhe provocou. A regra neste campo é o descampado. De Júlio Fogaça, vá lá, admite-se alguma coisa, porque este habita o antipanteão dos vencidos, não recordo bem de qual das faces do oportunismo, da história do PCP. Al Berto não conta para as contas, pois cedo teve o destemor de reconhecer em público que gostava de homens e ponto.

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Texto completo na edição em papel...

[Ilustração de Francisco Legatheaux]