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Editorial |
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Este país não me interessaQuando várias razões nos afastam a atenção do país e das coisas que nele se passam, deparamo-nos com a tentação de afirmar com um esgar snob: — Este país não me interessa. Ou: — Não posso perder tempo com este país. Claro que o desinteresse, apregoado de lábio levantado e cenho franzido, disfarça mal os dramas individuais. O país, choldra que seja (e é!), interessa-nos. No caso da maioria dos elementos da redacção da Periférica, o espectro da tentação snob tem dominado os dias desde há muito: há longos meses que a nossa disposição, vista de fora, parece sibilar que «este país não nos interessa». Tão-só porque há longos meses que, desgraçadamente, não temos oportunidade de nos relacionarmos com ele como sempre o fizemos e desejámos: dedicando-lhe uma enorme e carinhosa atenção — para o podermos zurzir convenientemente, ou desprezar com propriedade. Proclamar solenemente um distanciamento intencional em relação à pátria — Tenho mais o que fazer! poderia ser a mentira com que nos tentaríamos enganar. Isto porque o distanciamento é involuntário: tudo o que na verdade gostaríamos de fazer passa pela possibilidade de acompanhar minimamente o quotidiano português. Ou pelo menos algumas partes esperançosamente mais apresentáveis, como a vida literária. Acontece que a redacção da Periférica, por mor da saudável vida laboral, passa por um período de maior ausência social do que o da recruta em Mafra. No "calhau" (petit nom pelo qual é conhecido o convento mandado erigir por D. João V para que Saramago pudesse escrever o respectivo memorial), no "calhau", dizíamos, aos pobres diabos que lá vão parar apenas é sonegado o mundo nos dias úteis e raros fins-de-semana. À redacção da Periférica tem sido recusada qualquer folga na luta pelo aumento da produtividade nacional. O mundo tem ficado à porta. Nos poucos momentos em que, nas trincheiras onde cada um de nós está depositado, nos é permitido erguer a cabeça, verificamos que a paisagem se modificou um pouco — e nós não acompanhámos a mudança. Este hiato nas relações com o país bloqueou a produção literária de cada um de nós. Quase não houve artigos, crónicas, críticas. Não houve contos (isto a Pátria agradece). A Periférica ficou, nesta edição, menos "maledicente", para usar o termo dos nossos detractores. Não é que o fim do Serviço Militar Obrigatório tenha chegado à Periférica, como chegou ao Diário da República. Não é que, de repente, déssemos em pacifistas, em objectores de consciência, candidatos a prestar serviço cívico (se não for serviço cívico o que temos vindo a fazer). Nada disso. Ainda temos formigueiro no dedo, e os alvos andam por aí, oh!, se andam! Mas faltou-nos o estudo, a análise, a selecção e a indispensável observação dos objectivos. Sem o que, está bom de ver, não há tiros certeiros. E desperdiçar tiros, reconheça-se-nos esta qualidade, não é connosco. O que resta aos franco-atiradores quando forçados à lavoura em regime de exclusividade, de internato, até? Falar do tempo? Da saúde? Dissertar sobre a (impossível) vida amorosa? Relatar as peripécias caseiras do gato de estimação? Ponderadas as coisas, esta espécie de exílio voluntário (vá para fora cá dentro) pouco mais permite do que deprimir. E escrever crónicas sobre a vida pessoal. Mas, e aqui reside a tragédia, essas crónicas, mais gato, menos gato, já estão a ser escritas pelo Pedro Mexia na Grande Reportagem. E o mercado não aguenta mais do que um misantropo. Mas o armistício temporário forçado pela "grande economia" (a do nosso fim do mês, não a de Paes do Amaral) teve uma virtude. Serviu para espicaçar o nosso lado de editores. O prazer de editar pode ser igualável ao prazer de escrever. Por cá, temos tido a sorte de acumular as duas funções. Quando as circunstâncias não são favoráveis à produção literária, o crítico ou o cronista com a nossa sorte pode sempre dar lugar ao editor. E isso não tem de ser uma cedência forçada. Não tem de ser uma ocorrência a lamentar. Pelo contrário. Nesta edição não traçamos, como devíamos, o inefável perfil de Luís Delgado, é certo. Não estivemos, por exemplo, contra os manifestos de intenções ou vontades de regionalizar a educação e o ambiente (regionalização, num país onde o nepotismo local nem sequer tem a vigilância dos media!). Mas, dispensados da obrigação de escrever (assim como assim, não tínhamos como evitá-lo), pudemos dedicar uma outra atenção ao planeamento da edição. Pudemos ler mais textos, pedir mais textos, engendrar um tema, convidar mais gente. Chegados ao fim, tivemos o mesmo prazer a fazer a revista. E, com uma edição "pró-americana" nas mãos, bem que podíamos ter sido menos delicados e proclamado: — Este país não me interessa! Ao fim e ao cabo, até é verdade.
Nota à margem: A sinceridade do último editorial teve repercussões curiosas. Logo depois de a termos declarado, não faltou quem, perspicaz, anunciasse a novidade: «a Periférica censurou-se». Letras miudinhas: Para 2005, Santana Lopes anunciou aumentos de salários e diminuição de impostos. Jogando em antecipação à fartura que aí vem, a Periférica passa a custar 3,50 euros. |
Fotografia de BRUNO ESPADANA |