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Pulp Fiction

Prazeres hertzianos*

Textos de Luis Britto García | Ilustrações de Francisco Legatheaux

Ouvir a estática

[ilustração de Francisco Legatheaux]

Havia na velha casa de San José del Ávila um rádio com muitas bandas em cujo mostrador figuravam cidades como que trazidas do mapa-múndi: London, Bandoeng, Bagdad, Tokyo. Quando era miúdo ligava-o e percorria o planeta com a sua agulha, mas só escutava estalidos, notas musicais, trepidações. Estávamos no sopé de um monte Ávila que todas as tardes se encobria e as nuvens pareciam destilar na rádio assobios e crepitações e sons sem nome que deviam ser música das esferas. Eu pensava que quem ouvisse muita estática poderia reconhecer nela o nascimento das tempestades ou a queda de aguaceiros ou a passagem distante dos aviões cujos motores por momentos se punham ao altifalante. Mesmo quando me diziam os mais velhos que tantos zumbidos não eram mais do que efeito do acaso, parecia-me importante escutar o acaso, tentar compreender a casualidade ou condoer-me de todas as grandes composições daquela orquestra do nada que ninguém escutava. Neste preciso momento soa o grande concerto que só requer um rádio velho, um mundo infinito, um menino ocioso.

(* Título da responsabilidade da Redacção da Periférica. Estes contos integram o livro Andanada, a sair pela Thule Ediciones, Barcelona.)

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