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Nos limites do silêncio

Dois poemas

de Harkaitz Cano

Gente que trabalha nos telhados

É essa gente que, apesar de estar na tua agenda,
não reconheces.
Todos esses números e nomes que te são estranhos,
ainda que tentes recordá-los.

Eles, a gente que trabalha nos telhados,
jamais o confessarão, mas conhecem
a cor do céu.
Sabem que não é azul sobre as aves.
A gente que trabalha nos telhados, essa gente sim
tem verdadeira vertigem.
A gente que trabalha nos telhados não poderia trabalhar
num night-club, ou entre as quatro paredes de um café.
Pelo gesto que desenham
ao suspeitar que uma telha possa estar solta,
intuímos que, numa vida não tão distante, podem ter sido
indecisos professores de tango.

A gente que trabalha nos telhados odeia
as horas de ponta, evita aglomerações,
como se a multidão, os autocarros, o odor a leucemia
ou a palavra demasiado tivessem a culpa da sobrecarga,
de que o mundo se despenhe pouco a pouco
pelas suas fissuras de barro.

A gente que trabalha nos telhados sai de madrugada
desconfia até das ruas vazias.
Não são estáveis as avenidas no interior dos seus olhos.
E nas poucas vezes que se aventuram a descer
antes de deixar o passeio e pisar a passadeira de zebra
comprovam primeiro, com um pé,
a dureza do asfalto,
temerosos de que um rio gelado
possa quebrar-se sob os seus pés.

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