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Editorial |
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São rosas, SenhorA Periférica autocensurou-se. Amputou parte importante da anatomia do retratado na capa. Nada de extravagante. Um pénis em repouso. Um falo no seu estado mais habitual (maugrado fanfarronices machistas). Podíamos alegar que nos importava unicamente centrar a atenção do leitor no olhar altivo da figura, na rosa inusitadamente segura pela mão esquerda do nu. Mas não. Tratou-se, mais gravemente, de retirar o membro fálico para fora do enquadramento da capa. Claro que nos importam o olhar altivo da figura retratada e a rosa que ela segura. Mas um pénis a mais ou a menos, para nós, não faria a diferença. Ou antes: até fazia a diferença. A capa ficava melhor com o pénis à vista. Experimentámos. Também não nos moveu qualquer desejo sádico. O impulso de negar aos leitores a observação de um pénis a partir de um ângulo que cada um adjectivaria como entendesse. Vulgar. Curioso. Interessante. Habitual. Humilhante. Raro. Excitante. Muito menos quisemos induzir sensações lascivas pela frágil ocultação (ou a quase iminência) do sexo de um homem na capa. Por outro lado, o pénis nem sequer é nosso. Mais: está bem desenhado. Está muito natural. E o modelo, o original, não envergonharia o dono pela exposição pública nas livrarias do país. Não houve, portanto, razões de ego para a amputação gráfica. Amputou-se, é tudo. Também não quisemos testar o nosso auto-controlo perante aquilo que era mais fácil e apelativo, no sentido comercial — a exposição de um falo na capa da revista. Não quisemos insinuar, com a metáfora da ocultação do falo, que só por grande auto-controlo e ponderação somos comedidos nos textos, nas críticas, nas bocas. Não. Expor um sexo numa capa é coisa vulgar. Não o expor, também. E, como se sabe, nós apenas somos comedidos no que escrevemos por falta de informação ou inspiração. Às vezes, por razões de ordem ética. A metáfora, além de rebuscada, não se aguentava de pé (e isto não é uma alusão). A verdade, caro leitor, é que gostámos da imagem e da simbologia que ela podia carregar. Um homem nu. De pé. Olhando de cima para baixo. Com uma rosa para oferecer. Eis a Periférica. Uma revista sem nada a ocultar. Com uma coluna vertebral bem direita. Que olha de cima porque quase tudo está abaixo do plano dos seus olhos. Uma revista generosa que oferece rosas aos seus leitores. (E o que há de mais bonito para oferecer do que rosas?) É verdade que muita gente, porque não sabe por onde pegar na revista, se dá conta, da pior maneira, que as rosas têm espinhos. Mesmo as nossas. Mas isso é da ordem natural das coisas. Esta capa era para ser uma emulação da primeira capa da New Yorker (ela própria, a New Yorker, uma emulação da Periférica). Todos os anos, a revista americana apresenta uma variação do homenzinho janota, com cartola e lunetas, que observa uma borboleta graciosa — a imagem que define a revista e que todos reconhecem. A pintura de Ricardo Leite que serviu de base à capa desta edição parecia-nos adequada para definir o espírito da Periférica. A simbologia, a perspectiva, a pose, a rosa. Tudo se ajustava. Mas tivemos de lhe cortar na anatomia. Tivemos de proceder a uma circuncisão radical. Temíamos apresentar a
imagem em todo o seu esplendor. Temíamos ter de aumentar ainda mais a tiragem. Temíamos a avidez dos leitores e
das leitoras. Temíamos que nos achassem hipócritas, ou dissimulados, quando revelássemos o que
tínhamos a oferecer. Temíamos não ser levados a sério sempre que anunciássemos:
«São rosas, senhor*.»
*Ou «senhora», dependendo de quem pergunta. |
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