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O Padrinho

Carta para XXX

Texto de J. Rentes de Carvalho | Ilustração de Alain Voss

Prezado XXX,

Costuma-se dizer que por influência do tempo sombrio as pessoas afrouxam mais depressa as inibições com que por via de regra travam o seu comportamento patológico. Eu, que não sou médico nem psicólogo, desconheço se há base científica para semelhante afirmação. Como leigo, porém, ela parece-me corresponder à experiência geral de que um céu azul ajuda a desanuviar o espírito e um dia de chuva o irrita e oprime.

Por isso, com o esplêndido tempo que há meses gozamos, custa-me a crer que haja alguém com tanta amargura recalcada que, como o senhor, em vez de gozar o sol, se feche a escrever cartas anónimas. Sete, desde meados de Maio. Todas longas, todas abjectas, terminando com o triplo X que pelos jeitos é a sua 'assinatura.'

Até ao presente a minha experiência com cartas anónimas resumia-se a três ou quatro, remetidas por espíritos claramente transtornados. Outras tantas foram-me escritas anos atrás por um canalha que sem dificuldade identifiquei, mas tão desprezível que nem sequer mereceu que o levasse à justiça. Lembro-me também de ter recebido algumas de 'engraçados' que, sem coragem para exprimir as suas opiniões abertamente, mas mandaram 'assinadas' com pseudónimos como 'Cardo Vermelho' ou 'Filho de Khomeiny.'

Além de abjectas como atrás disse, as suas cartas distinguem-se por uma ferocidade que, não podendo exprimir-se impunemente em público, me escolheu para seu recipiente por razões tortuosas que só Deus sabe.

[...]

Carta completa na edição em papel...

[ilustração de Alain Voss]