Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.
Nos limites do silêncio |
ÍNDICE | FOLHEAR | ASSINATURAS |
A conversa com a actriz brasileira Irene Ravache recaiu na poesia. Na deferência e na solenidade que os portugueses dedicam à poesia nacional. Não era uma crítica — era a constatação despida de juízos que a sua experiência lhe permitia. Numa qualquer cidade portuguesa onde esteve em digressão, a actriz foi convidada para dizer poetas seus conterrâneos. Foi avisando que a poesia brasileira de que ela gostava, actual, era um pouco mais "desprendida", mais ligada ao quotidiano, menos cerimoniosa. Não fosse o público achar que a mulher não sabia o que era poesia, a poesia portuguesa. Claro que Irene Ravache, que concedia sem hesitações ter Portugal dos melhores poetas mundiais, não era conhecedora da poesia portuguesa que se faz — como, de resto, todos os portugueses, excepto o milhar do costume. A poesia "desprendida", ligada ao quotidiano, menos cerimoniosa não é, obviamente, mais uma exclusividade do tropical Brasil, como o samba. Aquelas e outras características são, como se sabe, transversais à generalidade da poesia ocidental das últimas décadas. Em Portugal, país dado à reacção, ainda é preciso, é claro, apelar a uma "poesia sem qualidades", como fez Manuel de Freitas, sujeitando-se à crucificação dos que não sabem ler. Mas, para lá do divertido debate entre "abstraccionistas" e "realistas" (se me permitirem ser um pouco maniqueísta), debate alimentado mais por aqueles do que por estes, o facto é que o grosso da boa poesia portuguesa é desprendido, ligado ao quotidiano e sem cerimónias. Basta comprar (e ler) os livros — coisa que nem toda a gente faz. Este longo exórdio, pretensamente douto mas desprendido, serve apenas para apresentar o poeta espanhol Pablo García Casado. Mais especificamente, quatro poemas publicados no seu El mapa de América (DVD Ediciones, Barcelona, 2001). Não se pretende defender uma tese. Pretende-se apenas estabelecer uma continuidade na política editorial da Periférica e aprofundar a iberização da revista. Pablo García Casado foi-nos apresentado conjuntamente com outros poetas da nossa geração com reconhecido mérito em Espanha. O cordovês, que aqui está traduzido por Fernando Gouveia, já havia sido antologiado por Joaquim Manuel Magalhães, em 2000 (Poesia Espanhola, Anos 90, Relógio D'Água, volume que incluía alguns poemas de Las Afueras). Naquela antologia, Magalhães considerava que a poesia de Pablo «está presa a uma simplicidade declarativa muito bem construída, onde o principal efeito estilístico é um uso do encavalgamento que acentua a qualidade de "conversa" que nela existe. Essa coloquialização pode, contudo, subjazer a processos retóricos complexos, como o uso do monólogo dramático, sem abdicar dos efeitos de linearidade em que se funda.» Ora nem mais. RAA |
Poemas de Pablo García CasadoFORDcomo um urso que desperta do letargo agora chegas tu meio adormecida e sai dos armários uma noite de frigorífico desligado o ford sobe lento pela colina GARNER, NCsuponhamos que ele tem 30 e ela 17 que ela se entrega no wc dos homens que passam três dias e três noites fechados que acorda na valeta da nacional 95 e que espera o autocarro nalgum ponto do mapa depois de caminhar toda a noite com os sapatos brancos na mão encandeada pelos faróis de todos os camionistas PAIno ford por estradas do norte onde ela sopra uma e outra vez as velas de um bolo vejo-a crescer perdendo-se entre as mesas falando com desconhecidos cabrão filho da puta demasiado cobarde tirei a minha bagagem e os meus poucos pertences Rubrica completa na edição em papel... |