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Confissões de uma Redacção de revistaDois anos. O tempo é de prebendas, distinções, visibilidade mediática, elogios, louvores, convites. A Periférica institucionalizou-se. Depois do perfil irreverente, crítico, marginal da infância, depois de ter descido à cidade como o deputado rural de Camilo Castelo Branco, o anjo de Vilarelho caiu. Corrompeu-se. Deixou-se seduzir pelas luzes do mainstream. Qualquer dia vai para a SIC Radical. Entra na rede do Expresso. Torna-se suplemento do Diário de Notícias. À sexta-feira. Dois anos. E é o tempo do apoio do IPLB, da publicidade da Gulbenkian, da regularização de relações comerciais com a Delegação Regional da Cultura do Norte. É o tempo das edições esgotadas, da necessidade de aumentar a tiragem. Da "popularização". Dois anos. E a consciência tranquila. Não nos lixem. Sucesso? Que sucesso? Mil exemplares vendidos? Um mísero milhar? Uns programas de televisão que passam a horas que ninguém vê (nem mesmo nós)? É sucesso saber da existência, à justa, de umas poucas centenas de interlocutores para o nosso discurso? É sucesso verificar que a Periférica — que nunca se escondeu, que nunca quis ser coisa de "culto" — é, naturalmente, vista por aí? E às vezes lida? É sucesso ser a New Yorker portuguesa nesta deplorável conjuntura? Não, caros leitores, a Periférica não está satisfeita consigo mesma nem com o país. Não está ofuscada com o mediatismo, porque não existe mediatismo quando se sai apenas fugazmente das fronteiras de Portugal — e para se ficar pelos jornais de Espanha, a partir de um plágio de um jornalista da EFE. Repare-se: dois anos e apenas um Nobel, quando temos na ideia pelo menos três (OK: concedemo-nos um prazo de vinte anos, mas isso foi quando ainda éramos pacientes). Dois anos e ainda não produzimos a "nova narrativa portuguesa" (por isso a procuramos fora de portas). Dois anos e, vá lá, diz-se ser a nossa crítica lida com mais atenção do que a do Expresso. A do Expresso, for god's sake! E depois há essa coisa da institucionalização. A Periférica, ao fim de dois anos, consegue a triste proeza de ter ganho dois títulos: o da revista mais maledicente e o da revista que se aburguesou. Alguém vê contradições nos rótulos? Analisemo-los. A revista mais maledicente. O que é a maledicência? Preferir textos críticos a encómios ou retórica oca? Deixar para os outros as loas e as abstracções e deitar a mão à provocação e ao reparo, na maior parte dos casos bem-humorados e/ou irónicos? Usar a crítica, não como uma declaração de guerra, mas como manifesto de insatisfação? Somos maledicentes. A revista que se aburguesou. Este título pressupõe que a Periférica em algum tempo não foi burguesa. Mais: pressupõe que a revista seria, em eras primordiais, revolucionária. Anárquica, talvez. Anti-capitalista, até. Leram mal. A Periférica, estamos cansados de o dizer, não vive em Maio de 68. Não quer derrubar governos. Não quer revolucionar as artes nem a política. Quer apenas conversar. Dar opinião. Dizer mal, na definição atrás desenvolvida. Às vezes quer, isso sim, dar merecidas cacetadas na cabeça do povão medíocre e abrutalhado (que, como se sabe, para além das massas do costume, tem como ingredientes altos dirigentes políticos e sociais, inúmeros artistas da pena e do tinteiro e carradas de repensadores da coisa artística). Podemos concluir que a Periférica, que não mudou uma vírgula no seu discurso (a não ser para melhorar a pontuação, coisa com que também nos preocupamos, e nisto não estamos muito acompanhados, diga-se sem falsas modéstias), podemos concluir, escrevíamos, que a Periférica não é uma revista marginal. Por opção. Nada temos contra os que preferem as sombras e os experimentalismos. Quando os experimentalismos são conseguidos, têm resultados apreciáveis, invejamos quem os consegue publicar — e lamentamos as sombras que os escondem do nosso olhar. Mas temos tudo contra os que pensam que nas sombras e nos experimentalismos está todo o valor da arte. Que na intenção está a virtude. Tudo contra os rebeldes sem causa — e sem inspiração. Dois anos e tudo como no início. Às vezes, quando temos mais tempo, quando as musas, os convidados e os colaboradores nos ajudam, lá sai uma edição que nos orgulha. Outras vezes queremos passar depressa ao próximo número. Dois anos e tudo como no início. Uma revista que se quer cosmopolita, sem provincianismos, sem tacanhez, sem complacência perante a mediocridade reinante. Dois anos e tudo como no início. Sem concorrência.
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