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Pulp Fiction

Amor em verde

Texto de Salvador Gutiérrez Solís | Ilustração de Francisco Lameirão

Um belo dia, Dona Carolina Lineros, Lina para os amigos, pintou a casa de verde. As paredes de um verde aquoso e as janelas de um verde-urtiga. Os móveis da sala, estilo remorso, e os da cozinha, e os do escritório, e os da saleta, e as camas e a sanita, tudo, até o candeeiro dos tempos do estágio esquecido no baú, pintou ela de verde. Finalizada a tarefa, Lina sentou-se no centro do hall, numa cadeira estilo agonia, debaixo de uma lata de tinta, verde, pois claro, que tinha pendurado no gancho do candeeiro. Atou uma corda à asa da lata de tinta, que levou até à maçaneta da porta. Cinco minutos antes de que o seu marido, o doutor Enrique Bermudo, regressasse do hospital, Lina introduziu um funil na boca, inclinou a lata e começou a engolir a tinta que desde o tecto lhe caía.

Abriu a porta Enrique Bermudo, puxou a corda, e toda a tinta verde que restava na lata caiu sobre a cabeça de Lina. Já estava morta, mas conseguiu fazer crer o seu marido que tinha sido ele o responsável. Chegou a polícia, e os curiosos, e os primeiro familiares. Enrique chorava sobre a mesa da cozinha, manchado de verdes. O inspector perguntou-lhe: — Tem o senhor alguma ideia de porquê a sua mulher fez isto?

— Não... — respondeu Enrique Bermudo. Ao secar as lágrimas dos olhos pintou-os de verde, tal como a testa, e os cabelos da frente.

Diante da sua mulher morta e verde, vendo como a metiam dentro de um saco de plástico, Enrique Bermudo recordou a última discussão, a noite anterior. Antes de sair para o serviço de banco, Lina, histérica, bêbeda e despenteada, gritou-lhe: — Filhodaputa, pensas que não sei de todos os teus esquemas no hospital, que te atiraste a todas as enfermeiras do segundo piso! Todo o mundo o sabe, e eu não sou tola! Vês uma bata verde e tornas-te um piçalouca, aqui te apanho e aqui te avio! Enrique, advirto-te, vais conseguir que o verde me mate, vais consegui-lo, e não exagero!

Enrique Bermudo, mais manchado, mais verde, procurou o inspector que antes o havia interrogado e disse-lhe:

— Senhor inspector, detenha-me, acho que fui eu que a matei.


Tradução de FERNANDO GOUVEIA

Todos os contos na edição em papel...

[ilustração de Francisco Lameirão]