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Os 400 Golpes

Preguiça ou barbárie

Texto de Rui Bebiano | Ilustração de Francisco Legatheaux

"Uma estranha folia possui as classes trabalhadoras das nações onde reina a civilização capitalista. (...) Esta folia traduz-se no amor pelo trabalho, na paixão mórbida pelo trabalho." Em 1883, n'O Direito à Preguiça, Paul Lafargue comentava assim a origem última do que lhe parecia ser a mais extrema vileza do humano. Viver acorrentado ao dever moral de trabalhar, para sobreviver mas também para ser-se reconhecido sem o estigma do parasita ou do criminoso. Mas uma opinião como esta surgia insulada dentro do movimento operário e popular da época, pois nem mesmo os anarquistas assumiram algo de parecido. Bakunine, o eterno insurrecto diante de toda a autoridade, defendeu que a mais absoluta liberdade deveria permitir o desenvolvimento das faculdades individuais através "da sua utilização pelo trabalho".

Herr Karl Marx, sogro de Paul, declarava-o como meio de opressão mas igualmente de libertação, tendo em linha de conta o papel instrumental que cumpria no contexto da definição do proletariado como classe revolucionária. Desta maneira, o marxismo original interpretava o trabalho como uma força redentora das sociedades e da própria condição humana, na linha daquilo que havia feito já a ética protestante-calvinista — Weber dixit — a respeito da fase histórica de lançamento da economia capitalista.

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Texto completo na edição em papel...

[Ilustração de Francisco Legatheaux]