Diário Selvagem
(Setúbal, de 17/VI/93 a 12/VII/93)
Texto de Luiz Pacheco
Transcrição e fixação de João Pedro George
[...]
19 de Junho [...]
O que me revelou (não ia pensar em tal) o diário do Eduardo Prado
Coelho foi que o Vergílio Ferreira ansiava pelo Nobel. Ora, o
Torga já foi proposto de há muitos anos. Deu isso azo a uma pugna nacional, mais que ridícula, uma feira
de macacos lusos.
Uns pelo Aquilino (mais de esquerda?), outros pelo Torga. Não me meti, não liguei, fiquei um tanto constrangido,
contrafeito por esse
PACÓVIO ARRAIAL.
Foi há meio século? Mais, menos? Passou. Mas tais ardores não esfriam. Estará o Torga,
estará o Vergílio a publicar para se manterem na 1.ª fila, na bicha para o Nobel. É que na correria
desatinada aos prémios estes dois já conquistaram tudo, à escala nacional, mesmo em França. Como
dois portugueses não iriam ganhar o Nobel a seguir ou próximo, quem ganhar é o
MAIOR.
Cálculo patareco. O que levará, então, o Torga a publicar este volume? A resposta parece óbvia
ambição de massas, vaidade, mostrar que inda mexe. Neste volume, ele ganhou o Prémio Camões (10 de
Junho de 1989; o Vergílio ganharia o dito em 1991, parece-me).
Quase me recuso a ler os poemas, depois de reler os do volume II. São toscos. Outra característica negativa:
ele não cita um único nome português. Estrangeiros e mortos: Marguerite Yourcenar, Salvador Dalí,
Pasionaria, Beckett. Pequenos requiem.
E há, também, uns comentários, reaças, a acontecimentos da actualidade (87–89), a fingir,
sugerir, que é cidadão do mundo. Muito chegado aos ditos do Vergílio. Fica-se com a sensação
que os dois lêem o "Diário de Notícias" e se guiam pelo que ouvem e vêem na televisão.
Nesse aspecto, o Zé Gomes [Ferreira] leva-lhes a palma, tinha a câmara de ressonância da sua tertúlia
de café. Nem o Torga nem o Vergílio são tipos de tertúlia, mazombice provinciana e feitio
íntimo. Nem, mesmo querendo, o Torga teria tertúlia em Coimbra. Havia, ali, a do Joaquim Namorado, mas não
o queriam lá.
O resto do volume [Diário II, de Miguel Torga] é PAISAGEM. Viagens. Mas quem quer
ver, conhecer o mundo ou mesmo só Portugal, pelos olhos deste
MACRÓBIO?
[...]
Rubrica completa na edição em papel...
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