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Nos limites do silêncio

Poemas de José Ferreira Borges

Quatro indisposições de velhice

1
Encontro-me, como ninguém, a beber
esta cerveja e a sua cor de Outono. Descem
ao longo da tarde as raparigas sem saia.
Já não me adianta clarificar o gosto.
Na juventude, sim: permitia
que as janelas se abrissem e uma folha
viesse da tília próxima acrescentar-se
ao meu dicionário.

2
Ninguém conhece, na taverna, o significado
da palavra correspondência. Mas
todos recebem cartas pelo menos
uma vez por ano. É preciso visitar,
além de tudo isto, os mortos: não conspiram
nem sabem o mau feitio do seu anonimato.

3
Era no tempo do nosso prazer inculto.
Dizias: «Deixa-me ao pé de casa.»
Nenhum de nós, aliás, antevira
o quadro de Gauguin que havíamos de partilhar
mais tarde, suspenso naquela sala
onde perdemos inclusive o gozo estético.

4
As folhas, como é evidente, já não servem
para a estatística. É difícil contar os mortos
e apreciar um quadro ao mesmo tempo.

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