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O oitavo passageiro |
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BIOGRAFIA DE UMA BIOGRAFIA O convite a Suso de Toro foi feito à queima-roupa, com o prazo bem ajustado à garganta. A prometida colaboração chegou, à tabela, na semana de encerramento da edição: a um pequeno recado do autor («A ver se vos valem estes três microcontos, ou como se lhe queira chamar.») seguia-se isso mesmo, 190 palavras a dividir por três; bom, mas a saber a pouco. (Pode encontrar esses textos mais à frente nestas páginas.) No e-mail seguinte — imediatamente seguinte — Suso desculpava-se: «Ah! Esqueci-me da minha biografia!» (Contrariando o protocolo habitual, a urgência obrigara-nos a pedir logo no contacto inicial o texto biográfico para inclusão nos "Patifes".) O que se lhe seguia — bem, o que se lhe seguia ocupa esta página e as próximas, e justificou a "promoção" de Suso da Pulp Fiction para O Oitavo Passageiro. Impõe-se falar da questão da "tradução". Há, entre o galego que Suso escreve e o português que é o nosso, menos diferenças do que entre a nossa grafia e a que Pessoa passou ao papel. Como nunca antes, custa a crer que sejam efectivamente duas línguas distintas, a norte e a sul da fronteira. Ainda assim, receámos (talvez injustamente) que a alguns leitores a mosca das diferenças ocultasse a torre que o texto ergue. Em nome da torre, optámos pela transposição para a norma portuguesa — por tradição, chamámos-lhe tradução; por justiça, acrescentámos aspas a tal designação. A REDACÇÃO. Meia dúzia de vidasTextos de Suso de Toro | Ilustrações de Paulo AraújoSUSO DE TORO é o nome de autor de alguém que tem escrito vários livros de ficção, ensaio, artigos, canções,..., e essa personagem, máscara, existe enquanto exista o que escreve, portanto é certo que existe realmente. Talvez Homero ou Shakespeare não tenham sido exactamente uma pessoa, mas são autores que continuam vivos, quer dizer, continuam vivos como personagens. [...] Mas este autor, servidor, vive disto e também tem de ganhar o pão e por isso, compreendendo e aceitando este jogo, sabe ser necessário arranjar para si um perfil biográfico de autor. Como resulta que é de um sexo vulgar e em crise, com inclinações sexuais do comum, tem uma idade medíocre e desprestigiada, a sua nacionalidade é discutível e por verificar, procede de uma classe social de transição e ambígua, culturalmente é cindido, fronteiriço e ancilar, com uma personalidade contraditória e ainda esquizóide, um temperamento instável e insatisfatório ao trato e uma aparência física modesta e carente de atractivos, pensei que, já que o autor não tem carne biográfica conveniente para oferecer, pois precisamente deveria usar a minha profissão para me arranjar uma, ou várias, boas biografias. Decidi que poderia apresentar estas modestas autobiografias que escrevi para que quem quiser as possa usar, escolhendo aquela que melhor convenha. Não estranhem, eu próprio faço-o às vezes; não é nada fácil hoje em dia saber quem se é. Podiam ser mais, também podiam ser menos, saíram-me seis e parece-me bem, a mim serve-me. Uma menos que os gatos, não está mal. [...] "Tradução" de FERNANDO GOUVEIA Texto completo na edição em papel... |
E ALI ESTAVA AQUELE HOMEM«O dinossauro contemplava com curiosidade aquele homem que estava a dormir placidamente. Então o homem acordou e berrou aterrorizado, vendo-o ali a olhar para ele. O dinossauro assustou-se muito com os seus berros e esmagou-o com a sua pata uma vez e mais outra até que o homem parou de agir e voltou à sua imobilidade. Logo o dinossauro volou a contemplá-lo com curiosidade.» |