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Editorial

A preguiça dos lerdos

 

Se não existissem outros instrumentos de aferição e a nossa arrogância fosse realmente desmesurada, diríamos que algumas das coisas que se passam em volta da Periférica ilustram bem o estado da nação.

Para meio país (uma grande parte do Portugal que já teve contacto com a revista — contamos por baixo, evidentemente), a Periférica é uma publicação intelectual. O termo é usado, claro, para manter estas páginas a uma distância segura. Isto aborrece-nos. Não o quererem manter a revista a léguas (também nós temos cuidado com a vizinhança). Aborrece-nos, sim, que achem a revista intelectual.

A Periférica podia ser um fanzine e não se zangava com isso. Há nesse estatuto um grau de liberdade, de independência e de juventude que preferimos ao estádio institucional — observador das conveniências, pretensioso, corporativista, zeloso das aparências e das artroses.

Mas a conjuntura nacional impôs que esta revista, como é sobejamente conhecido, tivesse de ser a New Yorker portuguesa. Não temos culpa nem mérito. Factos são factos. Agora, tenha o país paciência, mas isso não faz da Periférica uma revista intelectual.

É uma revista literária. De artes. Concedido: o que nela se publica é maioritariamente do domínio do intelecto, produto das dobras cerebrais. Só que aqui não há pendor para a teorização. Para a análise profunda e profusamente documentada. Para o ensaio científico, copiosamente argumentado. A revista não é propensa à exibição de qualquer cátedra eminente e vigorosa. Aqui não se disseca com erudição um texto ou um autor. Não se autopsia com requintes e ciência um romance ou um romancista. Não se examina com artes e instrumentos de laboratório o mundo e o caminhar gracioso do pensamento.

Na Periférica impera o cidadão comum de um país que não existe. O cidadão que lê e opina, sem pedir autorização - mas também sem autoridade reconhecida, e ciente disso. Impera o cidadão que observa o mundo e o país que existe e os recantos literatos do país que existe e fala deles com o à-vontade que lhe advém dos direitos civis e humanos. Consciente da novidade e do risco inerentes à ousadia. E da fragilidade da sua audácia. E da presunção da sua empresa. Impera o cidadão que arregaça as mangas para fazer o que raramente alguém faz por ele: editar sem segundas intenções. Porque não fazem falta. Tudo está nas primeiras intenções. A crítica, a provocação, a intenção iconoclasta - até a ironia. A ideia peregrina de colocar uma luz, uma luz que não ofusque, sobre aquilo que se quer ver claro. A vontade de conversar e pôr os assuntos em pratos limpos. (Não há segundas leituras nem entrelinhas: falamos de uma simples e sincera vontade de conversar.)

Na Periférica impera o bom-gosto, a exigência, a inteligência (e o narcisismo, e a imodéstia, confessamo-lo), imperam os méritos e os defeitos próprios do cidadão médio de um país que não existe. Só isso.

Intelectual, nos termos postos pelos portugueses, era a avozinha!

Invente Portugal outra desculpa para a sua fuga (e já não falamos da Periférica, ó maldizentes). Invente Portugal outra desculpa para a sua corjificação. Um produto como a Periférica só é intelectual para quem se assusta facilmente ou tem a preguiça dos lerdos.

[Capa do n.º 8] [Contracapa do n.º 8]