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Nos limites do silêncio

Uma pedra sobre o assunto

Poemas de Carlos Alberto Machado

Não é bonita a morte
é preciso dizê-lo
e depois põe-se uma pedra
sobre o assunto.

A ironia do destino
está às seis da manhã
na estação da gorongosa
vou até lá cumprimentá-la.

[para a Maitê]

Na rua onde moro
junto ao restaurante da esquina
plantaram um pequeno roseiral
na calçada esburacada
houve logo quem ficasse com medo
que subisse o preço das refeições
mas afinal isso não aconteceu
há uma semana que as rosas
vão esmorecendo na calçada
enquanto o medo muda de cor.

["devolvido à procedência", 2]

Cravei as unhas na palma da mão esquerda
e com a direita recebi grato a tua esmola
adiando sapatos novos italianos nos teus pés
e depois comi os carapaus fritos com açorda
e todo o restaurante ficou a saber como és
generosa para os mais necessitados poetas
ou não e não queres um pouco mais de salada?
terão também os comensais ficado a saber
que o cancro da vergonha rima com uns olhos em baixo
como a traição?

["devolvido à procedência", 3]

Ao lado do luminoso poeta testamentado
a poeta sexagenária abre muito os olhos
para absorver toda a luz que nunca teve
humedece os lábios repuxados em coração
rememora as palavras que já não consegue ler
e com a máquina calibrada para três minutos
espalha pela superfície do arco a casca das palavras e
a plateia de tufadas cabeças de prata aplaude
o golpe de asa.

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