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Nos limites do silêncio

Rua de Santa Sofia

Poemas de Vítor Nogueira

Vulnerável

Ninguém sabe de mim. De repente sem tabaco,
sou o homem invisível. E fumava um maço inteiro
para acabar este poema, vulnerável como eu.

Em certas manhãs de Outono, enganamo-nos
com a visão do que podíamos ter sido.
Rendo-me como um rapazinho bem comportado.
Vivamos sem poder e sem luxúria. Não sei
de conspiração nenhuma. Nunca estive à beira
de encontrar o santo graal.

Mas houve um tempo em que as pessoas me diziam
"és maluco". Infelizmente, já não estou
a falar de mim, estou a falar da minha infância.

Sempre que podíamos brincávamos com fósforos.

Rua de Santa Sofia

Nos melhores fins-de-semana, invadíamos
castelos. A cabeça protegida por um elmo
de cartão "recomendado pelas principais marcas
de máquinas", incluindo as que lavavam toda a roupa
secretamente suja nos telhados do mercado.
E pensar que nenhum de nós morreu dali a baixo,
que cumpríamos à risca o nosso pacto de silêncio,
permitindo à rua toda ser feliz devagarinho.

Quando as tréguas acabavam com as lutas de fingir,
descíamos ao relvado de granito, tão verde
como aqueles que nos mostrava a televisão
a preto e branco, onde o Eusébio ainda jogava.
Mas, por muito que custasse, o mercado tinha dono:
era tempo de gritar "olha o polícia". Meu Deus,
quantos remates ficaram por fazer, quantas bolas
deixámos para trás sem direito a despedida?

É curioso lembrarmos agora tudo isto.
A caneca de cerveja é uma bola de cristal.

Círculos

Por vezes, ocorria-nos pensar no destino
que tomavam as carroças dos ciganos;
ou no brilho dos olhos do carteiro, variando
porta a porta, como se tivesse lido as cartas.

Mas aquele era um tempo de certezas. Os pedais
das bicicletas depressa nos tiravam qualquer dúvida.

Até que um dia emigrou a família do João,
levando-nos à força o melhor dos ciclistas:
a rua parcialmente destruída, toda a gente
debruçada no seu próprio parapeito. E ninguém
se lembrou de nos dizer o que é o mundo.

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