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Editorial

Democracia e moralismo

 

Bem vistas as coisas, o fosso entre a plebe e as classes letradas mantém-se. Já não porque exista uma tirania feudal, poderes discricionários e ditatoriais, guardiães do templo da informação. Já não porque a ralé tenha o acesso ao conhecimento dificultado. O fosso mantém-se porque talvez seja essa a condição natural da espécie humana. A de existir uma enorme mole que despreza o saber e uma pequena elite que o busca (por infeliz propensão).

Claro que o grau de ignorância da populaça desceu muito desde que ela abandonou a gleba e a aristocracia condescendeu em emprestar uns livritos aos famintos. Agora só por maniqueísmo se consegue estabelecer a fronteira exacta entre o culto e o vulgo. Há mais gente a cruzar o fosso. Nos dois sentidos. (E alguns a cair nele, por distracção.) A realidade agora é mais dégradée. À velha dicotomia entre o preto e o branco interpôs-se a digital escala de cinzentos.

Mas o fosso está aí. Asséptico. Por razões de higiene pública, talvez.

O que mudou significativamente foi a relação de poderes. A reverência que era devida a um honesto carregador de livros foi substituída pela chacota. A entrada de um sábio não faz levantar ninguém com sincera veneração — quanto muito, faz levantar um zunzum de franco desprezo. Não se sobe na vida à razão proporcional da quantidade de livros lidos — entra-se na clandestinidade. A leitura continua a abrir horizontes — mas torna mais fechado o círculo de amizades. A tiragem da maioria das obras interessantes é a mesma do Tratado de Confissom, de 1489 — e o peso social dos autores é o mesmo que tinha o moço de estrebaria do bispo de Bragança, na mesma época. Dos artistas e dos intelectuais esperava-se antigamente que apontassem o caminho à polis. Hoje, espera-se que animem as festas na sua condição de bobos da corte popular — ou que apontem os resultados dos jogos da jornada.

A causa desta inversão de condições sociais é a democracia. Mas isto não é um libelo contra a democracia, nem um manifesto a favor dos intelectuais. Somos profundamente democráticos — e não muito esforçados pensadores.


A Periférica, por exemplo, faz-se sem pensar muito — e democraticamente. Cada matéria, cada proposta de colaboração, cada selecção de fotografias, cada novo texto, tudo são itens ponderados colectivamente — por ser mais fácil. E os casos de maior importância e dificuldade são submetidos a sufrágio.

Aqui a democracia funciona. Nenhuma minoria dentro da Redacção sai grandemente prejudicada, ninguém fica realmente frustrado com decisões contrárias. Não há revoluções, motins, greves — só amuos e pequenas retaliações na hora de pagar a conta nos bares. Ninguém recorre ao Tribunal Constitucional, ao Tribunal Internacional dos Direitos Humanos — ao cocktail molotov. As diferenças entre os membros da Redacção são significativas, mas não são abismais. Podemos discordar quanto à prosa dum reles candidato a colaborador ou quanto à orientação de um editorial — mas não deixamos crescer as barbas e corremos a escrever tratados de sociologia a sustentar qualquer posição, a definir as classes em luta.

No seio da Redacção da Periférica levanta-se a voz, interrompem-se raciocínios alheios, abandona-se a sala a pretexto de súbito défice de cafeína. Mas nunca se ameaça fazer implodir o barco comum, nem se boicotam decisões dos representantes eleitos — mesmo que elas sejam a recusa dum póster da Leonor Silveira a nu nas páginas centrais.

Os editores não são títeres do director nem ambiciosos populistas. Não há campanhas de intoxicação da opinião pública — só dos pulmões privados em redor. Nenhum editor convoca conferências de imprensa em horário nobre — até porque os eleitores na Redacção da Periférica não vêem televisão em horário nobre. Ou em outro. Nenhum editor visita feiras, nenhum editor se faz comentador de televisão — só crítico. De televisão. E de feiras. O populismo na Periférica não funciona. O elitismo também não — somos demasiadas elites dentro duma mesma redacção.

Todos na Periférica participam criticamente nos processos de decisão — se querem jantar. E aqui nunca se forma uma ditadura de massas (ou de lentilhas), porque se respeitam os gostos individuais na hora de encomendar o prato. Acresce que a incomensuravelmente pequena mole humana que faz a Periférica sabe conciliar os gostos das maiorias com os desejos das minorias — a conta é salomonicamente dividida.


Talvez a Periférica não seja exemplo moral para ninguém, mas vamos propor um programa ao Canal Sociedade. Já temos sotaina e nome: "70x7".

[Capa do n.º 7]