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Debaixo do vulcão

Música de perder

Texto de MANUEL DE FREITAS

Numa altura em que parecem recrudescer os disparates e preconceitos sobre a tão incestuosa relação entre a poesia e o "real", o mais recente livro de José Miguel Silva deveria (não só por isso, claro) ser considerado um bálsamo lúcido e incontornável. Que "real", ainda que os seus vestígios se dispersem feridamente no caudal dos versos, se manterá incólume face à suspeita de que "as coisas/que ontem nos pareciam boas/não existem" (pág. 59)? Desconfiar do "real" é ainda aquilo a que nos aconselha o "Finale: Allegro" deste livro, escudando-se num condicional que nada terá de gratuito: "na vida, apenas o amor nos poderia salvar/e o resto, já sabem — mentira" (pág. 64). Contudo, por mais irónica ou elíptica que seja a sua escrita, nenhum poeta consegue eximir-se inteiramente à mentira básica de ter vivido. Para o que aqui nos interessa, o real é tão-só a beleza partilhável com que estes versos nos assaltam, recusando frontalmente malabarismos estéreis e glosas retardadas que ignoram o facto mesmo de serem glosas.

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Artigo completo na edição em papel...

[Capa de 'Vista Para um Pátio seguido de Desordem', de José Miguel Silva]