há horas que estou aqui. sentado nesta pedra, os olhos pregados no rio. aqui — um vento soprando de longe, do alto das montanhas, lá onde os cavalos soltam as crinas; o chapinhar dos barcos contra o cais; a ponte lá em cima, pesada dos ferros e dos anos. estou aqui como poderia estar na minha casa, esperando o jantar na sala, ou que os netos venham da escola, imprevisíveis. mas estou aqui porque aqui ninguém me pergunta: vendeste cautelas, hoje? e eu: mais ou menos. não há quem as compre, por que haveria de ter vendido? e cada dia saio para a manhã com uma pasta cheia de cautelas para que não me olhem como o velho sem préstimo, que sou. [...]