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Nos limites do silêncio

Três poemas

de Rui Pires Cabral

SOHO, 1992

Atravessamos a sorte e a insensatez
das noites no Soho, entre as fogueiras
que nos interpelam com voz humana,
de olhos a arder sem vigilância. Sofremos
esta alegria na carne e a juventude permite-nos
quase tudo, quase isentos do passado
e do futuro. Mas numa esquina inopinada
a nossa casa (onde só podemos ser
o que fomos) chama por nós de outro tempo,
de outro meridiano: uma casa com hortas
e fuligem, árvores de fruto, família, fumeiro.

RECOMEÇO

O primeiro cigarro do dia é na varanda
quando faz sol: misteriosamente o terraço
do vizinho continua a concentrar a tristeza
do bairro inteiro. Mal acordado, juntas as linhas
que te permitem perceber quem és, onde estás,
o que terás de fazer a seguir. E a angústia
que te abraça é a memória mais antiga
que possuis, vem das casas de Bragança
e Moncorvo, já a conhecias antes de lhe seres
formalmente apresentado. Tu nunca quiseste
pertencer. Só à ponta da navalha. Só no fundo
do beco, encurralado. Meu Deus, que vocação
para o desassossego. Mas será um sinal de resistência
ou uma espécie de defeito anímico? Tanto faz,
vamos, põe a cafeteira ao lume. E recomeça.

FORA DO LUGAR

para a Daniela

A dor é uma desordem inimiga
das palavras com o silêncio todo fora
do lugar. Saberemos tomar um caminho
por essa floresta escura? Poderemos
sequer recuperar a pequena bússola partida,
a caneta e o papel, as nossas certezas
de trazer no bolso?

Não nos avisaram contra o medo,
não nos disseram que pode chegar
a qualquer hora, deslealmente,
enquanto o sol dorme na paisagem e as ervas
se levantam para receber o Verão. E agora
que quase nos perdemos, sem mapa ou sentido
que nos sirva, o nosso único guia é o amor
dos que nos esperam numa sala branca
onde o chão nos falta e não há estações.

[ilustração de Daniela Gomes]

Ilustração:
DANIELA GOMES

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