Se está a ler este parágrafo é porque o seu browser não suporta convenientemente folhas de estilos CSS (Cascading Style Sheets). Sugerimos que actualize o seu browser, pois caso contrário o aspecto deste site será muito diferente do planeado, se bem que continue a ser legível. As versões recomendadas dos browsers são: Internet Explorer 6.0 (5.5 já é bom), Netscape Navigator 6.2 (6.0 já é bom) e Opera 6.01.

Nos limites do silêncio

Tectos falsos (1)

Poemas de Manuel de Freitas

TRISTE-FEIA

Assim julgam ganhar o pouco
dinheiro da felicidade,
tão propício a luxos de estação.
Assim: na maior tristeza,
na reles promessa de um destino
que hesitam em chamar pelo nome.
Eu, de pé no autocarro cheio, não trabalho.
Terei sequer direito à palavra?

Pouco importa. Limito-me a ver
a sincera mentira dos seus gestos,
a ilusão de estarmos aqui
como quem sobe, arduamente,
a Maria Pia. Olheiras, fedor
e escarros vão pontuando
as curvas já sem rio de chegarmos.

É o preço que pagam ou recebem
para não serem felizes
– com a diferença, talvez relevante,
de acharem por força que são.
Como dizer-lhes, de pé, que
não consigo gostar deste cemitério?

Arrombo a casa sem porta,
termino já de rastos o poema,
abate-se sobre mim o que não quero.

ESCUDOS HUMANOS

para a Helena e o Miguel

Num intervalo de comentar
a guerra – Bassorá, não esperes
piedade –, lembrou-se de lhe perguntar
por Ulisses; se não recordava,
dos tempos de escola, nomes
e episódios cantados na Ulisseia.

"Dá-me outras palavras", pediu
quem o escutava, "não conheço
Portugal de Norte a Sul".
Pois não; nascera em Moçambique,
há cinquenta anos, e confundia
a guerra de Tróia com a vaga
aparição de golfinhos em Setúbal.
Mas tinha visto Uma Ulisseia
no Espaço
. Seria isso?

Dois homens, numa taberna,
enquanto chovia. O terceiro
era eu: aquele que escreve
e não escreve este poema. Entretanto,
Ulisses veio comprar tabaco,
cerveja e pão. Os longos cabelos,
caindo sobre um blusão negro,
as botas cardadas desafiando a chuva.

Não será por acaso que estamos
na rua Cesário Verde, número trinta
(desculpe, senhor Costa, esta publicidade toda).
A noite e o ódio vêm de novo abençoar
o inferno desigual de todos,
a apagada e vil cerveja que nos junta.

Penélope bem pode esperar
– esse dano colateral
a que chamamos angústia
serve de montada às Bolsas do Ocidente,
no estertor da última cruzada.

Até amanhã. Nada podemos fazer.
Oferecemo-nos como escudo
ao peso inútil de mais um dia.
A guerra já está ganha,
a morte é garantida e um poema,
infelizmente, não é uma arma química.

Rubrica completa na edição em papel...