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O oitavo passageiro |
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Daniil Harms, o malditoIntrodução de Filipe Guerra | Traduções de Nina Guerra e Filipe GuerraDaniil Harms é o derradeiro de uma série de pseudónimos (teve muitos) de um tal Daniil Ivánovitch Iuvatchov, nascido em 1905 em Petersburgo. Entre 1925 e 1927 dedicou-se à experimentação linguística. Harms e os seus amigos experimentalistas acabaram por repudiar todas as experiências com a criação de uma linguagem poética artificial, impotente e privada de sentido. Criaram a associação OBERIÚ (abreviatura de Associação de Arte Real), porventura o último grupo literário independente da Rússia pós-leninista. É no manifesto da OBERIÚ que se encontra a essência da arte literária de Harms. A OBERIÚ manda «ver o objecto e a palavra com os olhos nus», isto é, tanto o objecto como a palavra se devem despir das suas roupagens, quer literárias, quer do senso comum. Harms era um jovem activista da poesia. Dizia os seus poemas para públicos violentos que não admitiam fugas à função utilitária e imediatista da palavra. Harms, que nunca se meteu em política, começou a ser mal visto politicamente. Em Abril de 1930, o jornal juvenil Smena ditou a sentença do grupo OBERIÚ e, com ela, a do poeta Harms. Citamos: «O afastamento da vida, a poesia privada de sentido, o seu malabarismo incompreensível representam um protesto contra a ditadura do proletariado. Por isso a poesia deles é contra-revolucionária. É poesia de pessoas alheias a nós, é poesia do inimigo de classe [...]» Assim morreu a Associação de Arte Real. Dois anos depois nasceria a associação literária única da Rússia soviética, a União dos Escritores. Em 1932, Harms foi preso e deportado. Não podia contar com a publicação das suas obras «para os adultos». Refugiou-se na literatura infantil (as suas cantilenas, fábulas malucas, etc. ainda hoje andam no ouvido e na imaginação das crianças russas, ainda são utilizadas nas escolas para as crianças aprenderem a ler e a sentir a música da língua russa). Os textos que escreveu para os adultos só a partir do ano de 1965 começaram a ser editados na Rússia; desde 1969 no estrangeiro. O linguista americano Roman Jakobson dava Harms como exemplo do artista em que «a função comunicativa, própria tanto da linguagem prática como da emocional [...] reduz-se nele ao mínimo». A «arte real» de Harms sugere: esqueça-se o leitor das coisas conhecidas e, ao afastar-se das associações quotidianas, sinta a palavra «como tal» e, através dela, a essência autónoma dos objectos. Apresentamos aqui uns pequenos textos de Harms (de escolha absolutamente aleatória), todos da década de 1930/início da de 1940. Os temas da despersonalização do homem, da automatização da vida, do carácter fechado e limitado do espaço e do tempo percorrem toda a sua obra. O que lhes dá forma é uma linguagem simples e inesperada e um humor estranho e inquietante. Vislumbra-se em Harms o humor original de Gógol e uma certa recriação do ambiente de Dostoiévski, mas, na literatura russa do período soviético, Harms é único. Vamos encontrar Harms no melhor do humor negro contemporâneo... Voltou a ser preso em 1941 e morreu no hospital da prisão em 1942. A nossa intenção é despertar o interesse de um eventual e longínquo leitor português de Harms, o maldito. [...] Dossier completo na edição em papel... |
CADERNO AZUL N.º 10«Era um homem ruivo que não tinha olhos nem orelhas. Também não tinha cabelo, pelo que só convencionalmente se podia chamar ruivo. Não podia falar, porque não tinha boca. Também não tinha nariz. Nem sequer tinha mãos, nem pernas. Não tinha ventre, não tinha costas, não tinha coluna vertebral nem quaisquer entranhas. Não tinha nada! Por isso não se compreende de quem se trata. É melhor não falarmos mais nele.» (Daniil Harms) |