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Editorial |
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A pior revista de PortugalQuando o editor Pedro Rolo Duarte escreveu no seu DNA, suplemento dos Sábados do Diário de Notícias, que a Periférica representava o pior de Portugal, muita gente se benzeu: o país estava safo. Mas este alívio sentiram-no apenas uns poucos milhares de iluminados, os leitores da Periférica. O resto da pátria genuflectiu e pôs-se a perscrutar os céus de mãos postas. Que raio de coisa seria essa Periférica que reunia qualidades luciferinas como «a inveja, a arrogância, o despeito, a ignorância»? Magna questão. A resposta, como sempre acontece, não viria dos céus, que são avaros no que toca a esclarecer as angústias humanas. Quanto muito, veio da corrida às bancas ou do simples manuseio do Google, na Internet. Mas essas eram soluções para os leigos. Já nós, os que arquitectamos a revista, se quiséssemos, por uma vez, saber o que realmente andávamos a fazer, ou acreditávamos no texto do editor do DNA ou subíamos ao Tibete a meditar. Confessamos que acreditar em Pedro Rolo Duarte era coisa sedutora. Sentimos algum calor nas faces quando alguém reconhece que nos atiramos «sem dó nem piedade a toda a gente». E atingimos um êxtase quando nos dizem possuir a Periférica uma «arrogância» que a «leva a comparar-se à Granta». É bom sabermo-nos entendidos. Mas a verdade é que subimos ao Tibete a meditar. Ali, nas alvuras altaneiras, onde o nirvana se sente e apalpa como espesso nevoeiro londrino, ganhámos uns apêndices congelados (entre os quais contámos vários dedos inertes, orelhas rabiando, narizes rubicundos e... foi tudo), mas ganhámos também alguma maturidade. Connosco tínhamos levado o antológico texto de Pedro Rolo Duarte e umas sandes de chouriço espanhol. Ocupámos o tempo a reflectir e a dançar ritualmente com os pacíficos monges budistas. Nos longos crepúsculos tibetanos, enquanto nos mosteiros se cantavam hinos onomatopaicos, nós relíamos a prosa visionária de Rolo Duarte — e mastigávamos o salame com prazer. Havíamos de decidir se sim ou não a Periférica tem a mania «que é moderna no estilo, na imagem, no grafismo, no conteúdo». Tínhamos de pensar no que ganharia a Periférica ocupando «parte do seu espaço arrasando, gozando, achincalhando, toda a imprensa portuguesa». Urgia espreitarmo-nos os interstícios e confirmar (ou não) se representamos «uma geração» que se julga «acima de qualquer suspeita» ou uma «geração que se leva a sério». À dúvida inicial não conseguimos responder: não estava definido a que "modernidade" se aludia ali, se era conceito epistemológico, histórico ou do vulgo. No que toca à imprensa portuguesa também não chegámos a conclusão nenhuma: parecia-nos que ainda não tínhamos arrasado toda a imprensa portuguesa, logo a dúvida era extemporânea. Agora, no que se refere ao conflito de gerações, as certezas foram absolutas: estamos, evidentemente, acima de qualquer suspeita, mas, e isto é importante, não representamos geração nenhuma. Gostaríamos de representar um grupo económico, uma marca de whisky, o IPLB, o Ministério da Cultura — mas gerações não. As gerações só trazem bulícios e nós precisamos é de dinheiro. Se houvesse uma geração que se colectasse, abrisse uma conta em nosso nome, andasse pelas ruas de chapéu na mão enquanto nós aguardávamos, dickensianamente de cartola, na esquina do beco, representaríamos, orgulhosamente, essa geração. Haveria um dístico em cada capa a assinalar a geração que representávamos, como algumas revistas trazem o logótipo do IPLB ou do MC. Até faríamos um frete ou outro à geração que representássemos, publicando dossiers sobre o acne juvenil, longas reportagens sobre a moda preferida da nossa geração, entrevistas a um ou outro ícone da nossa geração. Mas nem com meditação zen ou tântrica nos chegou vontade de representar uma geração. Descemos as íngremes encostas tibetanas com novas dúvidas e calos nos pés. Sabíamos o que não é a Periférica mas faltava-nos descobrir o que é a revista. Foi preciso chegar a casa e folheá-la. Ler um ou outro texto. Reler editoriais. E afinal é simples. A Periférica é acima de tudo uma revista literária. Tudo o mais são elaborações de mentes desocupadas. Ou preocupadas. Certo, podemos acrescentar que a Periférica é uma revista literária bem disposta, sem preconceitos nem acanhamentos, crítica, irónica, auto-irónica, feita da maneira mais arcaica possível (por carolice), com os patrocínios mais interessados e afectuosos que existem (os dos amigos). Mas, caro Pedro Rolo Duarte, nosso mui querido e precoce Dantas, a Periférica é uma revista acima de tudo literária que, com a sua permissão, quer cultivar «a qualidade e a descoberta». Quer estar longe dos gostos massificados sem ser necessariamente marginal. Quer aproveitar a globalização e andar pelo mundo. Quer — sem que ninguém a mande, é certo; sem que ninguém lhe pague para isso, não escondemos as misérias — publicar coisas num ramo que vem ficando deficitário, audiências obligent. Quer ser um sinal de que nem tudo cede ao medíocre, ao glamour da imbecilidade, ao conforto dos afectos inter pares, à intriga palaciana, à coquetterie dos salões, à má-língua de vão de escada. Para dar um toque medievo à prosa, quer ser uma revista de viseira aberta. E quer chegar ao fim rindo muito de si própria se não o conseguir. (Já tem dado umas boas gargalhadas, et pour cause.) E é arrogante, pois claro. Está em posição de o ser. Haverá alguma revista em Portugal que
se pareça mais com a New Yorker? Ou com a Granta? Ou com o diabo-a-quatro?
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relatório minoritárioÀs vezes perguntam-nos por que fazemos a Periférica. Não sabemos responder. Há muitas razões. Uma talvez seja a vontade de entrarmos na conversa, de metermos o bedelho. Mas a mais partilhada das razões é o gozo de publicar coisas. De irmos à América buscar o Jordin Isip, ilustrador conceituado por lá que nos apetece apresentar aqui. O gozo de recebermos os slides de Misha Gordin, um letão residente nos Estados Unidos, fotógrafo "solidário" com o nosso projecto. O prazer de publicar em Vilarelho a Beatriz Dacosta, escritora galega. Ou a novel mas já notável portuguesa Cláudia Clemente. A alegria de termos o cúmplice José Prata a escrever-nos um perfil da editora Cavalo de Ferro. A comoção de recebermos das mãos de Nina Guerra e Filipe Guerra, tradutores premiados, um dossier com traduções inéditas de um escritor russo desconhecido em Portugal. Até agora. O gozo de publicar estende-se à perseverança de todos aqueles que embarcaram uma vez e se mantêm. Mesmo que o nosso risível planeamento editorial traga o leve embaraço de termos o Manuel de Freitas e o João Pedro George a escrever sobre o mesmo autor. «Nesta edição, dois olhares sobre Rui Nunes», diríamos apenas, se não fôssemos totalmente sinceros. Há o gozo de publicarmos alguns dos melhores poetas portugueses da actualidade. E de repetirmos, porque nos apetece, os cartoonistas Sergei, Waldez e Eray Özbek. Há o gozo de publicarmos uma entrevista de Maria João Cantinho a João Francisco Vilhena, co-autor de Atlântico. (Entrevista que poderá ler também na revista Storm.) E há o gozo supremo de, em cada edição, agradecermos pessoalmente, um por um, aos mecenas mais famosos
de Portugal — aqueles que nos pagam a tipografia e que a história há-de imortalizar.
P.S.: Esta edição tem menos páginas. Em compensação custa mais 0,5 euros. |