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Por quem os sinos dobram

MEC: Mensagens Enviadas da Cripta

Texto de Rui Ângelo Araújo | Ilustração de Paulo Araújo

Lembro-me de Carlos Quevedo da altura do velho Independente e de como eu o lia com gosto nessa época. Anos mais tarde, o sul-americano encetou uma relação a dois tempos com o DNA. A sua primeira performance no suplemento do Diário de Notícias foi por mim recebida com expectativa. Mas semana após semana o espírito murcho do DNA enfezou a prosa de Quevedo. Desisti de lhe ler as crónicas. Na segunda leva, o argentino veio acompanhado. A secção chama-se «Amigos, amigos...» e Carlos Quevedo escreve a segunda parte de uma rubrica a dois com um mote comum. Quevedo recobrou forças, recuperou o humor, cumpre o que se espera dele. Significa isto que o homem arranjou uma nova musa. Mas, e aqui é que quero chegar, uma musa que notoriamente não reparte com o colega de rubrica. (Na arte como nos negócios: amigos, amigos, musas à parte.)

Quem assina a primeira coluna na rubrica do DNA é Miguel Esteves Cardoso. A Periférica prestou-lhe a devida homenagem (ainda que indirecta) logo no primeiro número, num artigo sobre a revista K. Nesse texto fizemos dobrar os sinos pela revista, mas, noto-o agora, era já pelo grande Miguel que os fazíamos soar — e não sabíamos. Isto que lêem é, portanto, um post scriptum. Ou um requiem tardio.

Para os mais atentos, não desminto que o espírito de Miguel Esteves Cardoso pairou sobre os preliminares da criação da Periférica. Mas aqui é que está o problema: era já o espírito, não o homem. Isto que podia ser um mero recurso a uma estafada figura de retórica é, afinal, a verdade. Miguel Esteves Cardoso (o MEC, se bem se lembram) já não existe há pelo menos um ano.

Quando alguém escreveu no Expresso que a Periférica estava «na continuidade de um registo literário que Miguel Esteves Cardoso popularizou», sentimo-nos elogiados — quando nos devíamos ter sentido desapontados. Afinal, estávamos a continuar um «registo» extinto, como no notário se passam os registos carcomidos para um novo livro: novo papel, negócios antigos. A Periférica ouve-se em DVD — mas o original foi gravado em bobinas. A coisa era preocupante — julgámo-la estimulante.

Devíamos ter estranhado quando, há poucos meses, quisemos falar com Miguel Esteves Cardoso e ninguém (ou quase ninguém, há sempre um médium) tinha o contacto. Enviámos-lhe um e-mail — quando, mais eficazmente, nos devíamos ter reunido de mãos dadas à volta de uma mesa com pé de galo. Na primeira tentativa de enviar o e-mail, a mail box do destino estava cheia. Era já um sinal. Se o tivéssemos sabido ler, evitávamos embaraços. Na segunda tentativa houve certamente um intermediário generoso (que não soubemos reconhecer): o e-mail seguiu. Ainda teimosamente desinformados, esperávamos, claro, uma resposta por e-mail — quando devíamos ter ido visitar a Santa da Ladeira.

O leitor rir-se-á da nossa distracção. Mas temos as nossas desculpas. Repare: no DNA, onde se publica a prosa fantasma do MEC, aparece, de facto, uma referência à escrita automática — mas está páginas adiante. Um erro persistente de paginação dá nestes equívocos. Na rubrica «Amigos, amigos...», devia referir-se que a primeira coluna é um «transe», um exercício de escrita ditada do além. Ficavam as coisas explicadas: a assinatura e sobretudo as crónicas (até porque se entende perfeitamente quão difícil deve ser, estando o redactor necessariamente em transe hipnótico, captar a prosa distinta de MEC e pô-la no papel tal e qual ela saiu da origem).

Quando me apercebi de que o MEC já não existia? Tarde, muito tarde. Foi quando na leitura estupidamente obstinada do DNA dei comigo a passar directamente para o Quevedo. O hiato à esquerda, sei-o agora, é o que resta do MEC. Dobrem os sinos.

[Miguel Esteves Cardoso por Paulo Araújo]

«Devíamos ter estranhado quando, há poucos meses, quisemos falar com Miguel Esteves Cardoso e ninguém (ou quase ninguém, há sempre um médium) tinha o contacto.»