Lugares
Poemas de Vítor Nogueira
Fazendo cócegas ao destino
A chuva não nos deixa ficar sós,
trazida pelo vento a tiracolo.
Do céu ainda se espera algum azul. Só isso
nos mantém fiéis à esplanada. Aqui ao lado,
no quarteirão dos pescadores a vida corre
à medida das marés, com as gaivotas
recortando o horizonte das viúvas
e as traineiras indo e vindo em formação.
E se aqui continuamos, presos pela chuva,
é para que a vida não nos entre tão depressa
pela porta. Ou não fosse a alegria
um bálsamo que raramente se entranha
até aos ossos. Vale a pena congelarmos
o silêncio, o espaço afectuoso entre as palavras.
Trajecto
Ignoramos a cidade, os recantos
onde há pouco se declaravam os amantes.
Indiferente, um céu de Outono deixa-nos
atravessar toda a alameda. Fingimos
que nas folhas não se ouvem outros passos,
só os nossos. Como se toda a multidão
fosse apanhada em flagrante.
Há que passar despercebido,
sem fazer sinal aos deuses.
Baby, you can drive my car
Não vale a pena teimar, são becos sem saída.
É estupidez admitir que outra cidade se nos mostre
desenhada como a nossa. E pensar que acreditámos
neste mapa actualizado, escape virtual
para as nossas direcções. Aqui metidos,
tão-pouco percebemos as gaivotas,
essas metáforas tão gastas, apontando
de que lado se liberta o oceano.
Resta-nos lamber a culpa, talvez a nossa
maior ferida, enquanto a cidade se desfaz
em pedaços esquinados, peças soltas
que ao volante não encaixam.
Devíamos saber que o automóvel
é a nossa perdição, a jaula privativa
que jamais nos deixará tocar o mundo.
Rua de São João
Seguro um postal ilustrado que comprei
num alfarrabista. Um postal luminoso
que, muito antes de nascer, fui buscar
aos anos trinta. A Rua de São João.
Entretanto, os dias passam,
como sempre à mesma hora. A leiteira
que aqui vejo já não bate a esta porta.
As varandas e janelas já não abrem
para a Rua de São João. Hoje
chama-se-lhe Miguel Bombarda. As placas
já lá estavam nos distantes anos trinta.
Mas por essa altura o cadáver do herói
republicano era incapaz de tomar posse
destas casas. Longe vão os tempos
em que a toponímia era ditada pela vida,
afastando-se de deliberações municipais.
Longe vai a leiteira da Rua de São João,
nestes dias ultrapasteurizados de embalagens
tetra pak em que sinto ter nascido.
Rubrica completa na edição em papel...
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