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Nos limites do silêncio

Blues for Mary Jane (3)

Poemas de Manuel de Freitas

BUSHMILLS

para o Manuel Mozos

Afinal, vou ter de recordar
outra crítica alheia ao lixo
dos jornais. Já quase saíra
do bar, quando voltou atrás
e disse: "você escreve mal,
mas é lindo". Percebi
que não se referia ao meu corpo;
bebera certamente o bastante
para expulsar do coração
o desejo sequer vago de qualquer rosto.

Prostrado ao balcão, experimentou
primeiro uma água com gás,
um impossível regresso. Mas logo
trocou esse gesto de perdão por vários,
nada demorados, whiskeys.

Conheço demasiado bem
a dor, dez anos anos mais velha, daquele homem.
Tenebroso, sem saída é este mundo
que ingenuamente prometemos esquecer
com amor, álcool e outras mentiras.

Até deve parecer banal dizê-lo:
pedimos mais vida,
servem-nos mais morte.

ORFEU SENTADO

Não é, mas poderia ser,
uma personagem de Tardi.
A julgar pelos dedos largos
e o sorriso em aljava, lento.
No quadro a que se encosta
já esteve escrita a palavra "louco"
– aplicável, mansa, ao seu corpo.

Esqueceu-se hoje do isqueiro.
Não tem mal: acende
uns nos outros os cigarros.
O que agora mesmo terminou,
o que de novo tece a bandeira
do extermínio. Camel, filtro,
enquanto pede mais uma Sagres e
escreve distantes palavras
em pequenas folhas brancas.

Ao pescoço (não se enforcará)
traz duas canetas, servas
ambulantes da tristeza,
cruzes de totobola ao sábado.
Até porque não há diferença
nenhuma entre o Sporting
Clube de Portugal e
os sonetos a Orfeu de Rilke.

"A porta está aberta", diz o Manel
do Estádio. Mas quem ousará abri-la?

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