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O oitavo passageiro

Rituais de Primavera

Texto de Ian Jack | Ilustração de Rui Lúcio Carvalho

[Ilustração de Rui Lúcio Carvalho]

O fim-de-semana passado, enquanto «arrumava o meu escritório», desculpa habitual para as minhas longas ausências da vida doméstica, eu queria desesperadamente concordar com Larkin. Tenho demasiados livros. Comecei a detestar a sua confusão e a sua repreensão («Há muito tempo que não me lês», ou mesmo, no caso de Silas Marner, «Tu nunca me leste»). Muitos deles são lixo. Nem vale a pena discutir a palavra. Newman's Indian Bradshaw [revista que publica os horários dos comboios indianos], edição de Novembro de 1976: que outra coisa poderia ser considerada? Lixo, lixo, lixo. Lombada a desfazer-se, papel indiano do mais rasca: amarelado, quebradiço, salpicado de lascas de madeira. Um volume inquestionavelmente útil, mas cedo ultrapassado pelo Newman's Indian Bradshaw, edição de Dezembro de 1976, e por todas as actualizações mensais dos horários dos comboios indianos nos 26 anos que se lhe seguiram. Era incrível que tivesse roubado espaço de prateleira em três casas diferentes desde o dia em que voltei de Nova Deli, que tivesse ocupado um espaço valioso na minha mala (porquê?), em Abril de 1977. Ala para o saco do lixo; depois para o contentor.

E no entanto, e no entanto. Abri o livro. Um cartão de visita caiu. «H. M. Nandkeolyar, Gerente de Fábrica, Indian Linoleum Ltd, Budge Budge, Calcutá. Telegrama: Indoleum.» Devo tê-lo conhecido, certamente na fábrica de linóleo (que me lembro ter visitado) e talvez inicialmente num comboio («Se quiser saber tudo sobre linóleo, sou aquele que procura. Estou à distância de um telegrama. Por favor, aqui tem o meu cartão»).

Folheei algumas páginas quebradiças. Um livro interessante, este Newman's Indian Bradshaw. Em 1976 ainda tinham ferries a vapor para atravessar o Ganges em Patna; refeições vegetarianas e não vegetarianas estavam disponíveis em Bandel Junction; o Expresso da Alta Índia demorava séculos a chegar à Alta Índia. Lembro-me de estar num dos seus compartimentos alguns dias depois do início da monção, banhado num suor pegajoso e contente com a chuva que entrava pela janela aberta.

Voltei a pôr o Newman's na prateleira. A seguir, Servidão Humana, de W. Somerset Maugham, uma boa edição de capa dura com o pequeno moinho de vento de William Heinemann na página de rosto: primeira edição de 1915, presente edição de 1934. Este foi um dos primeiros romances adultos que eu li, mas de que me lembrava eu dele? Jovem doutor com pé aleijado tem dificuldade em relacionar-se com as mulheres — e mesmo esta memória pode vir do filme, com Kim Novak no papel da seduzida suja e mal-humorada. Li umas poucas de frases. «Ele atraiu-a até à penumbra da vedação.» Muito bom. A palavra «sórdido» aparece mais de uma vez. Eu conseguia ver de que forma este livro me cativara aos 15, 16 anos e mesmo o seu interesse para mim agora, se bem que nunca mais o voltarei a ler. Ainda tenho que ler todo o Philip Roth. E depois há aquela vergonhosa questão do Proust.

Ainda assim, voltei a colocá-lo na prateleira. Recordei comprá-lo num alfarrabista chamado MacNaughton's em Leith Walk, Edimburgo. Quando andava na escola ia lá muitas tardes de Sábado de Inverno. Descia-se umas escadas desde a rua até à cave, e lá estavam todos aqueles livro aquecidos por uma pequena braseira eléctrica. O MacNaughton em pessoa sentava-se ao fundo, fumando sinistramente. O silêncio só era quebrado quando ele anunciava o preço — «um e seis» — e quando amarrotava o papel de embrulho pardo. Subir de volta à rua — autocarros de empresas, homens a caminho do jogo do Hibernian F. C. — era como erguer-se dos mortos. A Servidão Humana era a chave para esse tempo, não tanto do tempo que descrevia.

A pilha seguinte era mais fácil: Ed McBain, P. D. James, Anuário do Paquistão (1978), todos para o saco dos rejeitados. E então surgiu um estranho livro de capas verdes: Um Bibliotecário Observa os Leitores, de Ernest A. Savage, edição da Library Association, 1947. O meu nome e uma data, Dezembro de 1962, estavam escritos no interior. Não tinha qualquer memória de o ter comprado, ou de o ter lido. Isto poderia dever-se ao facto de pertencer a um período de desapontamento estupidificante, quando deixei a escola e fui trabalhar numa biblioteca e pensava, aos 17 anos de idade, que a vida tinha acabado. Como é que arranjara esse trabalho? Porque me faltava «o Latim». E por que era isso importante? Porque em 1962 era necessário ter Latim (Latim avançado, melhor dizendo) para ser aceite no curso de Inglês da Universidade de Edimburgo. Então não poderia eu ter seguido outro curso? Provavelmente, mas, como disse ao professor de Inglês que me encorajava, «Eu quero ser Kenneth Tynan».

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Tradução: Fernando Gouveia

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