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Ian Jack

Entrevistado por Justin Webster

JW: Você foi colaborador da Granta antes de se tornar seu director, e o tipo de texto com que colaborou tornou-se um traço distintivo da revista. Nos Estados Unidos seria provavelmente chamado "jornalismo literário". Como é que você lhe chamaria? E como o definiria?

IJ: Jornalismo literário significa coisas diferentes em diferentes países. Na Grã-Bretanha, um "jornalista literário" é um autor de críticas e recensões a livros e de ensaios sobre literatura. O tipo de artigo a que se refere — e fico contente que o considere um dos traços distintivos da revista — assume aqui uma variedade de nomes diferentes: "reportagem alargada", "reportagem narrativa", por vezes "reportage" — o que é apenas a palavra francesa para "reportagem", obviamente, mas gostamos de nos convencer de que o uso de uma palavra francesa eleva e dignifica o processo comum — e talvez muito anglo-saxónico — de descoberta e descrição. Mas, de facto, nenhum destes termos é muito usado nesta redacção. Há algo de ligeiramente embaraçoso em todos eles. Porquê dizer "narrativa" quando a palavra "história", mais simples, servirá igualmente bem? Na Granta falamos de "histórias" e "artigos", por exemplo: «Seria muito bom se conseguíssemos que aquele excelente escritor X escrevesse uma história/um artigo sobre aquela situação interessante Y». Uma definição de trabalho desses artigos poderia ser: a) não são ficção; b) tendem a ser mais longos do que os aceites por um jornal; c) são narrativas (desculpem), não ensaios; d) deverão tornar mais claros pessoas ou acontecimentos — não necessariamente acontecimentos da actualidade — através da descrição e da interrogação; e) deverão ser escritos de uma maneira que aguente o teste do tempo e para um público que pode não estar predisposto a interessar-se, aceitando o princípio de que tudo pode ser tornado interessante desde que seja suficientemente bem escrito, o que pode querer dizer, entre outras coisas, "suficientemente claro". Digo este último porque muitos jornalistas que querem ser "escritores" imaginam que escrever para a Granta significa que têm de acrescentar todo o tipo de floreados e de vaidades enfadonhas para que as suas histórias passem a incluir-se na "literatura".

É muito simpático da sua parte considerar-me um dos expoentes desse tipo de artigos, mas a sua publicação na Granta antecede a minha carreira aqui. Uma das melhores coisas jamais publicadas na revista foi A Queda de Saigão, de James Fenton, saída em 1985. Um aspecto interessante é que foi escrita e publicada muito depois da queda de Saigão. Por isso, a actualidade não é um ingrediente necessário ao tipo de histórias não ficcionadas a que nos referimos.

Em espanhol, a ideia de que literatura é uma coisa e jornalismo é outra ainda é algo amplamente inquestionado. Por exemplo, Mario Vargas Llosa pode dizer, na colectânea dos melhores textos publicados no El País nos últimos vinte e cinco anos, que, depois da literatura, o jornalismo é a profissão mais entusiasmante que conhece. A Queda de Saigão é literatura? Se é, o que significa isso?

"Literatura" é uma palavra problemática. Sugere um padrão absoluto de grandeza — de excelência através das eras: Homero, Cervantes, Shakespeare, Dickens, Tolstoi, etc. Mas, de facto, a única maneira de a definir é como uma etiqueta que algumas pessoas colaram em certos textos. Recentemente, pediram a um artista conceptual britânico para definir "arte" e ele respondeu que era tudo o que pudesse ser apresentado numa galeria de "arte". Passa-se o mesmo com a literatura. São textos em forma de livro? É considerada "literatura" pelo seu autor? Poderá ser classificada como "literatura" pelo editor? Poderá ser ensinada num curso universitário de "literatura"? Se sim, então "literatura" será aquilo que tender a tornar-se tal. Seja melhor, ou mais interessante, ou mais profundo, ou mais esclarecedor, ou mais agradável, ou mais pertinente do que um texto classificado como "jornalismo" - tudo isto são boas questões.

Até tempos relativamente recentes, só o romance, o conto, o ensaio e a poesia eram considerados géneros literários. Géneros não ficcionais, como a biografia, a história, a narrativa de viagem, o texto científico e a reportagem ficavam fora deste reduto mágico, talvez porque a "imaginação" não desempenhava aí um papel importante: "imaginação" e "ficção" são palavras que andam de mão dada, tal como imaginação e invenção. Mas esta dicotomia "literatura/não literatura" não é sustentável. Veja-se o Nobel de 2001, V. S. Naipaul. Uma Casa para Mr. Biswas é um romance, logo aceitável como literatura, embora dependa em grande medida de factos da experiência pessoal do seu pai. Mas e quanto aos seus muitos e bons livros de não ficção? Não serão as suas explorações da Índia e do mundo do Islão literatura, só porque dependem tanto do recontar do mundo exterior como da sua imaginação interior? E deixaremos de considerar como literatura os ensaios de Orwell sobre os seus tempos de guerra, simplesmente porque foram escritos para periódicos — como jornalismo, se preferir, querendo com essa palavra designar algo temático e escrito para publicações menos perenes do que os livros?

Voltando à questão do Fenton e do seu artigo sobre Saigão: sinceramente não me interessa se o consideram literatura ou não. Está muito bem escrito, e ao fim e ao cabo é isso o que conta.

Sente que a escrita não ficcional em inglês está num momento importante de desenvolvimento? Mencionou V. S. Naipaul, que deixou de escrever romances para escrever não ficção — em vez de ir no sentido contrário, como Tom Wolfe ou George Orwell. Livros não ficcionais, que não se inscrevem nas categorias habituais, como The Surgeon of Crowthorne, de Simon Winchester, tornam-se agora frequentemente best sellers. Ou será a escrita não ficcional de qualidade tão velha como o Daniel Defoe, o que mudou foram as modas editoriais?

Para ser exacto, o Naipaul voltou à ficção. O seu último livro é um romance — isto apesar de ele afirmar reiteradamente que o romance, como maneira importante de descrever o mundo, está morto; que o romance está gasto como forma, já deu o que tinha a dar. Pessoalmente, não sei se isso é verdade. A "morte do romance" é uma ideia fácil de aceitar. Por outro lado, o romance tem este hábito persistente de erguer-se dos mortos. O mais maravilhoso na ficção é a liberdade que ela permite. E essa liberdade mantém-se. Talvez actualmente não haja é muita gente a saber o que fazer com ela.

Relativamente a um certo tipo de não ficção - chamemos-lhe narrativa não ficcional — sim, há uma certa moda. Nos anos oitenta, graças em parte à Granta, as memórias e a narrativa de viagens começaram a ser consideradas tão interessantes como o romance e talvez até como "literatura". Hoje diria que a narrativa histórica e a narrativa científica se lhes juntaram — ou talvez até as ultrapassaram no interesse que despertam. Depois de Longitude, de Dava Sobel, todos os editores queriam um livrinho sobre um assunto até aí obscuro (mas potencialmente interessante), com alguns resultados bem tristes e mal-amanhados — coisas como "Uma Pequena História da Calçadeira". Não saberia dizer se este tipo de escrita está a passar por uma importante fase de desenvolvimento. Nada me faria crer nisso. O verdadeiro desenvolvimento ocorreu quando os escritores levaram muitos recursos do romance para as áreas não ficcionadas, tais como a narrativa de viagens e a autobiografia. Isso já era feito há muito tempo, mas não ao ponto a que chegou hoje. Entre os seus expoentes actuais mais aclamados e influentes incluem-se Paul Theroux, Norman Lewis e o falecido Bruce Chatwin. E poderíamos incluir também Frank McCourt.

Defender uma abordagem tão aberta relativamente à escrita resulta, quando se é director de uma revista? Isso levanta problemas na altura de decidir o tipo de escrita que a Granta publica ou não?

A Granta não tem um manifesto, mas ao longo dos últimos vinte e três anos criou uma tradição. Em termos gerais, prefere o realismo e o "contar de histórias", por isso poder-se-ia dizer que foi a casa da "narrativa realista". Compreendo perfeitamente que esta é uma espécie de definição vale-tudo, podendo incluir, digamos, tanto Richard Ford como Salman Rushdie, como um qualquer desconhecido relatando um desastre numa mina, mas é a melhor definição que consigo arranjar. É mais fácil dizer o que não publicamos. Primeiro, nada de poesia (com três excepções ao longo das duas últimas décadas — poemas de Michael Ondaatje, Vikram Seth e Rushdie). Segundo, nada de "escrita sobre a escrita", nada de ensaios sobre literatura, nada de recensões. No entanto, publicamos fotografia documental, o que talvez dê uma pista quanto ao que nos interessa. O Observer de Londres disse recentemente que a Granta tem «a sua face colada ao vidro da janela, decidida a testemunhar o mundo». Não me desagradaria adoptar essa como a definição dos nossos objectivos.

[...]

Tradução: Fernando Gouveia

Entrevista completa na edição em papel...

[Ian Jack por Stephen Gill]

Fotografia:
STEPHEN GILL

«O Observer de Londres disse recentemente que a Granta tem "a sua face colada ao vidro da janela, decidida a testemunhar o mundo". Não me desagradaria adoptar essa como a definição dos nossos objectivos.»