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Editorial

Crónica de uma noite na redacção da Periférica

 

Este esteve para ser um número ímpar. Quer dizer, este é um número ímpar, o quinto, mas não o publicamos sob esse mote ambíguo. Não porque tenhamos de repente ficado humildes (não tínhamos razões para isso) ou porque deixassem de nos interessar os trocadilhos. Não é um número ímpar (na acepção "excepcional" do termo) por duas razões: porque é "apenas" mais um degrau na nossa stairway to heaven e porque acordámos em resolver, na capa, duas questões de uma só vez. Por um lado anunciamos o excelente portefólio de Erwin Olaf; pelo outro, assumimos às claras a nossa condição de nobres. Royal blood é, portanto, o que nos corre nas veias, ó plebeus!

Feito o anúncio e revelada a nossa nobreza, poderíamos dar o editorial por terminado. Mas há mais coisas a dizer, estas sim difíceis, porque sérias. E quando começamos a falar a sério a coisa pode azedar. Para nós.

Não terá escapado ao mais humilde dos vilões (vós, gente do vulgo) que a Periférica não foi à bruxa saber a sua sina. Quer porque não acreditamos em bruxas, quer porque não acreditamos em sinas. Ou seja: esta revista não teve um programa editorial bem definido, um rumo distintamente traçado, os parafusos todos apertados. A ideia mais sólida era: «Depois vê-se». E viu-se.

Mas agora, numa certa noite, um ano depois de tudo começar, pusemo-nos de novo com ideias, com hesitações, com arrojos, com manias, com perguntas. O que mais interessa para a revista (ou seja, para nós)? Que Nobel vamos convidar? Que caminhos vamos trilhar? Que entrevistas? Que reportagens? O que queremos dizer com «Periférica»? Que dia é hoje? Vai haver mais cronistas? Vamos ter ensaios? E teatro? E cinema? Que prosadores vamos ter? Que poetas? Vamos ter um manifesto? Que manifesto? Ainda há whisky? Que horas são?

Eram horas de ir embora, claro. As questões que nos colocávamos já não eram muito... periféricas. Subia-nos à cabeça um certo comentário de António Guerreiro no Expresso — e os presentes que nos chegaram de Sangalhos, que é onde nasce o Grant's, nas Caves Aliança. O susto maior foi quando alguém um pouco menos sóbrio, folheando a Granta (por causa da matéria que publicamos neste número), fez a pergunta:

— Então não achais que está na hora de nos pormos à procura da «nova narrativa portuguesa»?

— ...

— Claro! O país não é assim tão grande. Pomos anúncios, cartazes, telefonamos, mandamos e-mails. Fazemos a nossa selecção e até lhe podemos chamar «Ficção sem qualidades».

— Ó pá, o Manuel de Freitas é capaz de não gostar muito da ideia — opôs-se um de nós, mais respeitoso.

Era tarde. (P'ra aí umas três da manhã.) Saímos todos para a rua à procura da «nova narrativa portuguesa». Ainda virámos umas pedras da calçada, espreitámos uns becos, abanámos umas árvores... Mas cansámo-nos. Dispersámos. E a Periférica? Como ficava?

Um coro desafinado:

— Depois vê-se!...

[Retrato dos artistas enquanto sóbrios]