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Quo Vadis? |
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Quasi EdiçõesTexto e Fotografias de Fernando GouveiaAs Quasi Edições (os editores preferem pluralizá-la) são a muitos títulos um caso raro em Portugal. Surgiram em 1999 no âmbito de uma Associação Cultural e em 2000 transformam-se em empresa comercial, a Do Impensável. Apesar da breve vida, nestes quatro anos já passaram dos cem livros editados, oitenta por cento dos quais poesia. Assumem claramente uma postura comercial, uma estratégia empresarial — coisa rara numa pequena editora (epíteto que vão recusando). Além destas diferenças — o que já não seria pouco —, as Quasi têm a particularidade de estar sediadas em Vila Nova de Famalicão. Uma editora naturalmente periférica? Jorge Reis-Sá (o editor) desmistifica esta condição, onde até encontra vantagens: «Permite que façamos o nosso trabalho muito calmamente, fora do frenesi das grandes cidades. E depois, Famalicão não é longe de nada, vamos a todo o lado com alguma rapidez, Portugal é pequeno. Descer a Lisboa leva três horas, não é nada do outro mundo, e o Porto está aqui a quinze minutos.» A entrevista, inicialmente prevista para decorrer online, acabou por se efectivar em Famalicão. Foi mais de uma hora de conversa, aqui condensada, em que se falou um pouco de tudo: das dores de parto da distribuição própria aos critérios editoriais, passando pela — na opinião dos editores — cruzada do Manuel de Freitas contra os pagãos das Quasi Edições. Nem de propósito: o texto que o Manuel nos tinha enviado para a rubrica «Debaixo do Vulcão» trata, exactamente, das Quasi. Mas isso é lá mais para a frente nesta edição. Por agora têm a palavra Jorge Reis-Sá e Valter Hugo Mãe. As Quasi editam fundamentalmente poesia, mas ultimamente nota-se uma tentativa de alargar o âmbito das publicações. Porquê? Jorge Reis-Sá: É o reflexo de termos uma máquina que está a tentar ser montada e oleada e que neste momento já tem seis pessoas. E é claro que com poesia é difícil aguentar seis pessoas. Além disso a nossa ideia, inicialmente, nunca foi fazer uma editora só de poesia, era fazer uma editora livreira normal. Começámos pela poesia porque o Valter é poeta, porque eu também escrevia, gostamos ambos muito de poesia e da nova poesia portuguesa, mas o que nós queremos é ter uma editora. Então vocês — ao contrário de algumas pequenas editoras — não se assumem pela ruptura, como querendo marcar uma diferença. Fundamentalmente, vocês querem editar. JRS: Não nos achamos tão pequenos quanto isso. Editamos em dois anos e meio cerca de 70 ou 80 livros, estamos ao nível de uma editora média. A diferença é que temos estado num mercado mais reduzido, o da poesia, e por isso fazemos muito e ganhamos pouco, não dá para ganhar a força comercial de outras casas que aí estão. Mas estamos bem, estamos felizes. Valter Hugo Mãe: A única diferença que realmente queremos marcar é fazer coisas que não estão feitas. Por exemplo, no que diz respeito à poesia, por que é que nós surgimos tão notoriamente? Porque estávamos a fazer livros de pessoas em quem ninguém estava a pegar, porque recolhemos obras que tardavam a ser recolhidas, porque com alguma rapidez juntámos meia dúzia de nomes novos e estreámos pessoas que andavam para estrear há muito tempo e não conseguiam que as editoras lhes pegassem. Por isso acho que acabamos por ser diferentes. E também porque queremos ter uma imagem mais ou menos dinâmica, porque somos novos e porque não temos ainda preconceitos em relação às coisas ou não temos convicções que nos impeçam de aceitar textos que venham de qualquer quadrante. Não temos qualquer vínculo ideológico ou político que nos impeça de editar opostos, por exemplo. Por isso temos essa liberdade, e se calhar essa é a nossa pequena diferença neste momento. JRS: A qualidade, tanto quanto a entendemos nós próprios, está na base de tudo o que queremos fazer. A partir daí estamos atentos às oportunidades e procuramos muito. Queremos garantir que fazemos o que podemos e, por vezes, o que devemos. Gostamos de ver o que chega pelo correio, nunca desprezamos nada, acreditamos no acaso, acreditamos na sorte, temos medo do azar. Relativamente a esses tais autores que não eram publicados por outras editoras: isso ocorre devido a preconceitos da parte dessas editoras, ou a pouca disponibilidade para novos nomes? VHM: Acho que tem fundamentalmente que ver com pouca disponibilidade. A poesia andou durante todos os anos setenta e oitenta muito na mó de baixo — surge uma grande editora, que é a Assírio & Alvim, mas que deixa de fora grande parte daquilo que está a acontecer actualmente, porque é uma editora que publica sobretudo autores da década de setenta e anteriores, e tudo o que acontece nos anos oitenta e noventa é quase completamente deixado de parte. A poesia é vista como um parente muito pobre, como algo que vende muito mal — o que é verdade, é muito difícil vender — e foi deixada sem edição durante muito tempo. Nós viemos editar muita gente que andava a editar de uma forma díspar, inconstante; fazemos esse trabalho, sabemos o que nos custa, mas é o que estamos a fazer. Quem é que decide o que é publicado pelas Quasi? JRS: É à sorte: chegam pelo correio e a gente edita os ímpares. VHM: Só as raparigas! Quem deve ser cáustico somos nós, não vocês... JRS: Não, decidimos nós. Depois falamos com mais algumas pessoas: com o Harold Bloom, o George Steiner... VHM: E aqui vale tudo: cunha, amizades, dinheiro, suborno, favores sexuais... vale tudo. Realmente, se alguém quiser publicar aqui basta seduzir um de nós. Somos ambos muito vulneráveis, o Jorge e eu, estamos disponíveis para qualquer proposta indecente; se houver dinheiro e sexo, melhor. [risos] [...] Entrevista completa na edição em papel... |
Valter Hugo Mãe (esq.) e Jorge Reis-Sá (dir.) |