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A Barreira Invisível |
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O inferno fica à esquerdaTexto de J. Rentes de Carvalho[...] Falta-me tempo para visitar os santuários do Boi-Homem, da Santa Leiteira, da Campa do Preto. Não vou a Arouca ver a Santa do Tropeço, uma mulher acamada desde 1975 e que nos jejuns, visões e diálogos com Cristo oferece uma imitação aguada da santa de Balazar. Passo de largo por Fátima, com o seu ininterrupto cortejo de padres e peregrinos, e rumando para sudeste percorro os trinta quilómetros que me separam de Torres Novas. Mais três quilómetros pela estrada velha do Entroncamento e chego à Ladeira do Pinheiro, termo da minha jornada. Painéis que guiem o romeiro não os há em parte nenhuma, mas logo à esquerda distingo a cúpula azulada da igreja da Mãe Maria e para lá meto por um caminho de terra batida. Uma monja sorridente e bem humorada pára o arranjo do altar e diz-me que se venho para a santa terei de ir um pouco mais adiante. Vou, passo um portão, e inesperadamente encontro-me num largo rodeado de edifícios díspares em que predomina a cor azul, e que assim à primeira vista desempenham as funções de lugar de culto, de asilo para velhos, internato infantil, estabelecimento hoteleiro, loja de relíquias, e ainda, o mais estranho, de jardim zoológico. Em jaulas e gaiolas diminutas há cães, gatos, papagaios, macacos, pombas, cobras, tartarugas... A um sacerdote quarentão e barbado pergunto se os animais têm a ver com o culto e ele responde-me desabrido que não, que são o hobby do senhor Humberto. — Falar com a Mãe Maria? Sem audiência? — a irritação com que me olha é a de quem atende um débil mental, mas nesse momento surge a irmã Clara, e a irmã Clara nasceu com um dom tão evidente para as relações públicas que logo me dá a impressão de que nenhuma das minhas perguntas ficará sem resposta, nenhum milagre sem explicação. — Falar com a Mãe Maria? Ela vai ver se se arranja. Visitar os edifícios? Certamente, menos os aposentos da Mãe e o andar onde se instala Sua Beatitude quando vem ao santuário. De resto tudo o que eu quiser. O senhor Humberto? O padre Stefan não me disse? O senhor Humberto é o marido da Mãe. Marido místico, claro, porque seria impossível ser-se marido carnal duma pessoa tão próxima de Deus. — Vamos primeiro ver os cabelos? Durante um êxtase a santa arrancou da cabeça uma pequena madeixa e Jesus disse-lhe que a não deitasse fora, pois se daria um milagre. Os cabelos, expostos numa caixa com tampo de vidro, vão já em quase dois metros e continuam a crescer. No mesmo quarto está o Cristo que sua sangue e a cama onde a partir de 8 de Dezembro de 1965, rodeada de testemunhas, Mãe Maria permaneceu quarenta dias e noites sem dormir, em jejum total e sem beber água, tornando-se em tabernáculo vivo com a sagrada hóstia na boca. "Porém — continua a infatigável irmã Clara — o prodígio não ficou por ali, pois o arcanjo São Miguel administrava diariamente a comunhão à Mãe Maria. Em cada dia, antes de comungar, a hóstia que ela tinha recebido no dia 8 de Dezembro desaparecia para reaparecer no tabernáculo que se encontrava no seu quarto sobre um altar. Logo após ter engolido a hóstia quotidiana, a hóstia de 8 de Dezembro reaparecia na sua língua. Tudo isso constatado pelas muitas pessoas constantemente presentes." Parecem-me já milagres de sobra, mas a irmã Clara tem mais. Mãe Maria subiu corporeamente ao Céu pelas 12,30 horas de 12 de Junho de 1968, regressando às 15,00 horas. Os que testemunharam esse prodígio viram-na erguer-se no ar e desaparecer a grande altitude, seguindo-se uma chuva de rosas e registando-se correntes de ar intensamente perfumadas. De regresso à barraca onde então morava, a vidente entrou em posição horizontal por uma janela fechada que se abriu misteriosamente para lhe dar passagem. Relatando em livro a sua digressão celestial, Mãe Maria diz ter sido acompanhada por uma numerosa milícia de anjos, e que a dada altura seguiram uma estrada. Para a esquerda havia um ramal que levava ao Inferno, encontrando-se aí três lagos fedorentos. Um outro ramal, também para a esquerda, ladeado de fumos e de espinhos levava ao Purgatório. Ao fim da estrada do Céu viu Deus! "O Pai Eterno, sentado num grande trono, apresentava-se com barbas muito crescidas, tendo à sua direita Jesus Cristo e à esquerda a Virgem e São José. Junto de Deus Pai há uma caneta e uma espécie de olho que se transforma em espelho, tendo em frente uma pomba com a cabeça pequenina, que irradia uma luz que ilumina o Céu inteiro. Os anjos tocam trombetas, entoam cânticos e têm umas letras nas asas, cujo significado não estou autorizada a desvendar". A irmã Clara, dando-se conta do meu cansaço perante tantas maravilhas, reanima-me com a promessa de que a Mãe Maria me falará em particular. — Posso fotografá-la? — Pois com certeza. Fotografo a santa, sessentona sobre o gordo, enquanto ela sentada junto duma parede recebe os queixumes e as preces dos seus fiéis. A uma oiço-lhe que recomenda que vá ao médico e lhe peça umas vitaminas fortes. A outra garante que o seu pedido será atendido. A uma terceira promete o restabelecimento duma vaca doente. Finalmente chega a minha vez. Faz sinal para que me aproxime, aperta-me a mão, sorri e pergunta-me o que quero saber. — Se vai muitas vezes ao Céu. — Vou. — É verdade que faz chover dinheiro? — É verdade. — Transforma a água em azeite? — Transformo. — Faz andar os paralíticos e cura os doentes? — Curo. — Ouvi dizer que a consideram uma séria concorrente de Fátima. — Não. A Ladeira do Pinheiro é a continuação do mistério de Fátima, e isso não agrada a certas pessoas. A Ladeira é o tesouro de amor eucarístico, é a renovação dos tabernáculos do mundo. A irmã Clara sussurra-me que basta, a Mãe pode dum momento para o outro cair em transe, e como à noite se vão realizar os demorados festejos da Páscoa Ortodoxa é bom evitar que ela se canse. — Ortodoxa? — Sim. Nós somos da Mãe Maria e da Igreja Ortodoxa. Só então me dou conta que a cúpula da igreja tem a forma característica da cebola, que os padres que por ali andam são popes, que o traje negro das monjas não é o corrente nos conventos católicos. Quero pedir detalhes, mas a minha guia insiste para me mostrar primeiro a fabriqueta onde a santa se entretém com o fabrico de queijos, a casa onde um ex-jesuíta quase centenário pinta quadros místicos, a grande catedral em construção. E o asilo dos idosos. E o alojamento onde são recolhidas as crianças abandonadas. E a escola. E a exploração agrícola. Retoma a lista dos milagres e das visões, das chagas da mística, do caso do vestido queimado, do seu comprovado dom de ubiquidade, das conversas com o padre Pio e Jeanne d'Arc. Para as minhas forças é demais e despeço-me aturdido.
Volto ao cair da noite quando em redor da igreja começa a reunir-se o Exército Branco, o grupo das fiéis que, vestidas de rendas brancas, fazem contraste ao traje negro das monjas. A Mãe Maria apeia-se dum Alfa Romeo conduzido pelo padre Stefan. Acendem-se centenas de velas. Os popes entoam os seus cânticos. Os crentes acompanham em coro. E eu sinto pena que Deus Pai me não tenha escolhido para ir visitá-lo ao Céu e ver com os meus próprios olhos a caneta com que ele escreve os nossos tão variados destinos neste tão curioso mundo. Texto completo na edição em papel... |
«A irmã Clara sussurra-me que basta, a Mãe pode dum momento para o outro cair em transe, e como à noite se vão realizar os demorados festejos da Páscoa Ortodoxa é bom evitar que ela se canse.» |