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Debaixo do vulcão |
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A ardente frouxidão dos líriosTexto de MANUEL DE FREITASNos últimos tempos, um débil e inflacionário "sentimentalismo" poético — que nos habituáramos a associar a dignas e humildes edições de autor — parece ter-se propagado a editoras aclamadas e com assinalável divulgação mediática. A contribuição mais flagrante para esta etérea distracção das musas deve-se, sem dúvida, às edições Quasi. Não esqueçamos que, no catálogo da editora de Vila Nova de Famalicão, existem nomes merecedores de outro tipo de atenção (entre eles, Ana Paula Inácio, Pedro Mexia e Rui Coias). Mas trata-se, infelizmente, de excepções. Enquanto regra, servirá de exemplo o recente Quando o Verão Acabar, de José Rui Teixeira (2003). A julgar pela badana, estamos perante uma estreia, "especialidade" da qual os editores da Quasi publicamente se ufanam. O que falta, como em tantos outros casos, é o pé direito, uma certa e desejada voltagem, jeitinho para a coisa em suma. Sintomático, logo no início, é o (infantil?) conjunto de poemas que nos fala de uma "menina sentada" que "guarda na pequena caixa de plástico/todos os sonhos dos homens" (págs. 7–19). Até aqui, nada de novo ou de particularmente censurável. Todavia, a inocência, como tão bem sublinhou Almada Negreiros, é uma árdua conquista. No presente livro, pelo contrário, ela reduz-se a um dado adquirido, propenso aos mais comuns dos lugares e sem qualquer ressalva irónica: "um destes dias vou encontrar-te/com um lírio na mão/e no rosto a reminiscência de planícies/que acabam no mar//há uma casa cheia de janelas/no coração do teu ventre". (pág. 30). E, com isto, citou-se na íntegra um poema. Na certeza de que o mar, a "reminiscência" e a incontornável saudade são factores patológicos a considerar quanto ao que de pior se tem escrito em Portugal. Por vezes, percebe-se em José Rui Teixeira alguma perícia oficinal, versos capazes de resistir a comoções epidérmicas sobejamente exauridas: "ontem é uma pedra que atiro ao espelho/nos dias em que sobrevivo/à imposição da tua ausência" (pág. 34). Porém, esses momentos felizes são brutalmente asfixiados pela inacreditável suspeita de que José Luís Peixoto tem já epígonos. Entendamos, por isso, uma estética (?) da pieguice e da redundância: "eu caminhava contigo/junto de ti/ao teu lado/e tu davas-me a mão/e o modo como a tua mão tocava na minha/era expressão de um amor que não se diz/porque não se sabe dizer" (pág. 41). Acrescente-se, em abono do autor, que em circunstância alguma deve ser ele o "culpado", mas sim quem se dispôs a editá-lo. Um editor de poesia não tem, obviamente, de ser poeta; tem, contudo, a obrigação de ser um leitor de poesia suficientemente exigente para não vender como "poemas" inanidades que chegam a ser confrangedoras: "as árvores lá fora/eram sacudidas pelo vento cinzento/de um dia assim" (pág. 43). Versos que, à falta de outros méritos, nos fazem reavaliar o estro leve e duradouro de Augusto Gil. Mas temos, infelizmente, de regressar ao paradigma Peixoto, que muito deve à lucidez míope de Eduardo Prado Coelho e aos reformados do DN Jovem. As evidências lexicais e a lacrimejante futilidade do registo de José Rui Teixeira não só dispensam comentários como roçam o plágio: "morreste-me na manhã/de uma noite assim//e eu contive-me/para não chorar//para que visses/que não chorava//e desse modo/não morresses" (pág. 45). Poema seguinte: "mesmo assim morreste-me/e eu senti/que já sabia" (pág. 46). O luto, como qualquer sentimento humano, deve merecer o máximo respeito. O que falta a estes poemas, mais precisamente, é aquilo que nos possa convencer de que os livros não são apenas "árvores ingloriamente derrubadas" (Maria Gabriela Llansol). Reitere-se, por uma questão de justiça, que Quando o Verão Acabar é aqui referido enquanto
metonímia de uma situação, facilmente observável, em que a quantidade aniquila a qualidade (promessa
já não de reificação, mas de "quasificação" poética). Como se o sentimentalismo
primário e a inconsistente rarefacção vocabular tivessem voltado a ser, para alguns, exaltante
sinónimo de poesia. Isto quando a poesia, se o for, é a deriva que nada nem ninguém previra, a
negação concreta de toda e qualquer sinonímia ou filiação directa. No pântano colorido
em que se transformou o mundo editorial português, José Rui Teixeira é apenas mais uma vítima —
não sei se das boas intenções, se da ausência total de critérios estéticos.
Peçam-se responsabilidades a quem inventa, edita e promove livros como este. E não desesperemos: ainda temos o
Figo, o Manuel Alegre e o galo de Barcelos.
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«Reitere-se, por uma questão de justiça, que Quando o Verão Acabar é aqui referido enquanto metonímia de uma situação, facilmente observável, em que a quantidade aniquila a qualidade.» |