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Fahrenheit 451

Quando a realidade ultrapassa a ficção

Texto de Helena Barbas

A escolha deste título para esta rubrica foi uma espécie de «homenagem póstuma» e muito alívio por já não estarmos «lá». A partir deste novo renascimento do segundo milénio olhávamos de cima os autos-de-fé do passado: a nossa evolução civilizacional era um garante de que já não corríamos aquele risco. Que os perigos seriam apenas esporádicos e pontuais.

Falso.

Depois das pilhagens no Iraque, da destruição ou roubo de milhares de objectos diante dos olhos impassíveis do exército de nações tidas pelas mais avançadas deste nosso mundo, o título desta rubrica adquiriu uma actualidade arrepiante. Revelou-se, muito infelizmente, premonitório. E agora, como falar de livros?

 

As pilhagens no Iraque chamaram a atenção para outras menos mediáticas e igualmente tenebrosas. A destruição da Biblioteca de Jafna no Sri Lanka (1981 – 97.000 manuscritos); o Museu e Biblioteca da Bósnia (1992 – 6.000 manuscritos); a destruição do Museu de Kabul (1993) e os 1.400 manuscritos budistas do Afeganistão, comprados por um norueguês, Schøyen, que generosamente os disponibilizou na net e não se importa de os vender até aos seus ex-legítimos proprietários.

Chamaram também a atenção para outras formas de rasura mais discretas, os pequenos impedimentos de publicação, as condenações miúdas de pequenas obras, o "esquecimento" a que são votados alguns livros e autores — e legiões de outras. Aqui vai um link de links sobre o assunto: www.ifex.org/francais/links/censor.html — por enquanto, porque a net se está a tornar ela própria um novo alvo de higienização.

Para se ficar com uma ideia muito pálida do conteúdo de alguns dos objectos destruídos — as tais tabuinhas de escrita cuneiforme — há um clássico, de Samuel N. Kramer: A História Começa na Suméria (Europa-América, 1.ª ed. 1963). Kramer tornou-se famoso por apresentar os primeiros 39 "tops" da história: o primeiro almanaque de lavradores, primeiros códigos civis, primeiros Dilúvio e Ressurreição, as epopeias de Gilgamesh e Inana, entre muitos outros, escritos 3.000 anos antes de Cristo. Era uma pequena amostra resultante do trabalho de escavações que andava a ser feito há um século.

Mais recente, e do português José Antunes Carreira, temos Literaturas da Mesopotâmia (2002). J. N. Carreira começa também pela Suméria, com estudos e transcrição de poemas. Subdivide o livro em dois grandes capítulos: Literatura Suméria e Literatura Acádica. No primeiro oferece poemas mitológicos, contos épicos, escritos sapienciais, textos histórico-literários e lírica cultual e profana. No segundo vêm as epopeias: de criação, de heróis divinos, de Gilgamesh, e também os mitos de ascensão, escritos sapienciais e mais textos histórico-literários. Estabelecendo linhas de tradição, mostra-nos como evoluíram e se foram contaminando. Marduk suplanta Enlil, um dos grandes deuses do Panteão Sumério, na (erradamente) chamada «epopeia babilónica da criação». Um texto do séc. XI a.C. com o qual dialoga tanto o Génesis bíblico, quanto a Teogonia de Hesíodo: «Quando no alto o céu ainda não existia,/ em baixo a terra firme ainda não surgira/ havia Apsu, o primordial, seu criador,/ e criadora Tiamat, que a todos gerou;/ haviam misturado as suas águas,/ antes de se unir terra de pastagens e se achar junco — / antes de nenhum dos deuses formado/ ou aparecido ser, os destinos imprecisos — / Os deuses nelas (águas do caos) foram então criados:/...» (pág. 112). Na página 72 vem a «Lamentação sobre Sumer e Ur» — «.../Oh mulher justa, cuja cidade foi destruída, como podes ainda existir?/ Oh Ningal, cuja terra pereceu, como é que o teu coração continuou a dirigir-te!/...» — 500 versos em que até os deuses se lastimam.

José Nunes Carreira, Literaturas da Mesopotâmia, Centro de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, Lisboa, 2002, 208 págs., 9.50€

 

[Capa de 'Literaturas da Mesopotâmia', de José Nunes Carreira]
Da perspectiva dos exilados e refugiados temos o novo romance de Agota Kristoff, Ontem. Kristof nasceu na Hungria em 1935. Em 1956, quando da repressão soviética exila-se para a Suíça. Fica a viver perto de Neuchâtel, em cuja universidade aprende o francês. Entretanto trabalha em relojoaria, como vendedora e ajudante de dentista. Escrevera já poemas em húngaro, deixa alguns romances em manuscrito, e estreia-se em francês com algumas peças de teatro. Encontra, porém, o seu lugar na literatura francófona por via do romance: O Caderno Grande (1986), A Prova (1986), A Terceira Mentira (1991), publicados pela Asa em 1993 com o título Trilogia da Cidade de K, e reeditados separadamente em 2000.

A escrita de Kristof fascina pela crueldade. Não pela riqueza de pormenores dos episódios ou descrições, mas pelo seu oposto: uma simplicidade — sintáctica e metafórica — que rasura qualquer emoção. Num estilo seco, apresenta todos os fenómenos do mundo a um nível igual, sem coloração afectiva ou hierarquizações éticas.

São livros perigosos: há três anos, um professor ia sendo preso, e teve a casa revistada pela polícia, por ter incluído O Caderno no seu programa para alunos de 13–15 anos. Valeu-lhe a intervenção das Editions du Seuil e do então Ministro da Cultura Jack Lang (Le Monde, 1 e 12/12/2000). O problema, além das cenas de sexo, era o facto de os gémeos não prevenirem o pai dos riscos que ia correr, assistirem à morte deste, e um deles usá-la para fugir.

Não oferecendo qualquer tipo de avaliações positivas ou negativas, a escrita de Agota Kristof reduz todas as coisas à frieza da aparência, à profundidade da pele.

O fenómeno repete-se em Ontem, um romance escrito na primeira pessoa, onde se insinuam situações autobiográficas, sem que a história o seja. O narrador, Tobias Horvath, aliás Sandor Lester, trabalha numa fábrica de relógios, e escreve à noite: poemas na língua materna, prosa na língua do lugar onde vive: «... Para nos tornarmos escritores só é preciso escrever. Evidentemente, acontece não termos nada para dizer. E por vezes, mesmo que tenhamos alguma coisa para dizer, não sabemos como dizê-la./ — E por fim, o que é que fica do que escreveste?/ — No final, nada ou quase nada. Uma folha ou duas com o meu nome escrito em baixo. Raramente, visto que queimo quase tudo o que escrevo. Não escrevo ainda suficientemente bem. Mais tarde escreverei um livro, não o queimarei e assinarei Tobias Horvath. Toda a gente acreditará que é um pseudónimo...» (pág. 68). São os «rascunhos» de Tobias — ou não — que se incrustam no livro como discursos fragmentários e outros, um pouco alheios à história, mas cheios de poesia: «"Eu era grande e pesado" diz ele. "As pessoas tinham medo da minha sombra que caía sobre elas ao início da tarde. Eu também tinha medo quando caíam as bombas. Voava para muito longe e, passado o perigo, voltava a pairar demoradamente por cima dos cadáveres./ "Eu amava a morte. Adorava brincar com ela. Empoleirado no cimo das montanhas sombrias, fechava as minhas asas e, como uma pedra, deixava-me cair./ "Mas nunca ia até ao fim./ "Tinha ainda medo. Amava somente a morte dos outros./ "A minha própria morte só passei a amá-la mais tarde, bastante mais tarde.» (pág. 87).

Agota Kristof, Ontem, trad. Diogo Madre Deus, Cavalo de Ferro, Lisboa, 2003, 92 págs., 12.50€

 

[Capa de 'Ontem', de Agota Kristof]

Neil Gaiman e Dave McKean juntaram-se em boa hora para escrever um daqueles livros que os adultos compram desculpabilizados com a desculpa de ser para as crianças: O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos. A história é muito simples, à falta de cromos, um menino resolve trocar um pai que passa o tempo todo a ler o jornal. O problema é que a mãe não está muito pelos ajustes. E o segundo problema é destrocar todas as trocas sucessivas. Gaiman esteve por cá dias 1 a 3 de Maio a assinar livros e dar uma conferência no BD Fórum. Tem um curriculum imenso — www.neilgaiman.com — tão grande como o de McKean — www.mckean-art.co.uk — e ambos têm um também imenso sentido de humor muito naturalmente britânico.

Neil Gaiman e Dave McKean, O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos, Vitamina BD / Devir Livraria, Lda., 56 págs., 15.00€

[Capa de 'O Dia em que troquei o meu pai por dois peixinhos vermelhos', de Neil Gaiman e Dave McKean]