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Pulp Fiction

O senhor Onofre

Conto de Rui Ângelo Araújo

O ângulo é propício. O senhor Onofre aguarda, por trás do estore, que o lojista rode a chave nas três fechaduras da porta e se retire. A loja fica em frente ao quarto que o senhor Onofre alugou.

Quem olhar da rua, do lado da loja, vê uma enorme vidraça no primeiro andar da pensão Baleia Azul. Vê uma espécie de marquise dividida em três janelas, a central maior e as laterais mais pequenas. Vê os dedos seguros do senhor Onofre que levantam um dos lados das primeiras lâminas do estore cinzento. O lojista não vê, apenas pressente um olhar na janela mais à esquerda, a do lado leste, o lado do mar. Por isso engana-se: pensa tratar-se da beata que ali mora desde sempre, a baleia proprietária doutra baleia; pensa na fama que ela lhe arranjou desde o primeiro e maldito dia em que resolveu instalar ali os seus electrodomésticos; pensa nas chatices e prejuízos que essa fama de contrabandista e debochado lhe trouxe; pensa na vontade que tem de a mandar para a puta que a pariu; pensa que, antes que lhe faça um manguito, o melhor é ignorar a janela, olhar em frente, prender os olhos no farol ao fundo da rua, não os tirar de lá até que o seu caminho habitual o obrigue a virar à direita e a subir a calçada muito íngreme e escura onde sabe que vai esbaforir-se.

O senhor Onofre senta-se num pequeníssimo banco, alheio aos pensamentos do lojista, a observá-lo até que o adivinha praguejar depois de dobrar a esquina. Os dedos seguros soltam as lâminas do estore e puxam o cordel que as levanta até à altura das sobrancelhas. O olhar brilha-lhe, seja por emoção, seja por nas retinas se reflectirem as emanações dos enormes televisores dispostos ordenadamente na montra da loja em frente. O senhor Onofre olha-os com delícia, sorrindo no canto da boca.

Antes, o senhor Onofre estacionava pontualmente às sete da tarde o seu utilitário cinzento à margem da praça do museu. Abria o vidro, mas não saía do carro, não ligava o rádio, não falava com ninguém. Limitava-se a estar feliz olhando as casas, olhando os transeuntes, ouvindo uma ou outra conversa dos grupos que passavam, vendo entrar e sair do bar os jovens, vendo entrar e sair da missa as velhas, sorrindo no canto da boca até à meia-noite. Depois, vieram as obras no saneamento e o largo ficou com as tripas de fora durante semanas. O senhor Onofre ficou sem horizonte — até encontrar um ângulo propício.

Nos dias seguintes rondou a Baleia Azul, ora subindo a ver os quartos da pensão (e viu-os todos), ora entrando na loja em frente a olhar com falso olho clínico todas as cassetes de vídeo para aluguer, ora fingindo passear junto ao farol enquanto cronometrava os horários do lojista, ora forçando-se a uma conversa lacónica com um ou outro pescador sobre as marés, as correntes, os ventos e outras ignorâncias marítimas, ora confundindo-se na sombra enquanto o lojista esbaforia e praguejava rampa acima, pontualmente às dez da noite.

Decidira-se a alugar um quarto. Na verdade, nem sequer era um quarto: tratava-se de um antigo terraço cujas generosas infiltrações de água e humidade haviam requerido os serviços do trolha, do carpinteiro, do pintor, de todos os artistas necessários para fechar, cobrir e alindar os vinte metros quadrados que em tempos foram o orgulho estival da decadente pensão. Ainda por ali andavam objectos dos gloriosos fins de tarde de Agosto de outras eras. Fosse a desfiada rede pendurada entre dois pilares de finos relevos; fosse um canapé muito roído pelos ratos da casa; fosse um velho e romântico violão requebrado pelas memórias das unhas que o tangiam e dos ais que se ouviam; fosse uma escarradeira platinada, testemunho de primitivos hábitos que atestavam a antiguidade da casa; fosse um estranho artefacto metálico, assente num pé de mármore, de insondável utilidade.

Nem sequer era um quarto, de facto, mas tinha o melhor ângulo para a montra da loja. A dona da pensão, velha beata de pios hábitos, cuja viuvez precoce de avantajado pescador lhe dava uns achaques inesperados, não soube resistir às investidas do senhor Onofre e ao seu olhar ávido. Que o era mais pela marquise do que pelas abundantes carnes da mulher, ainda que os trejeitos e maneiras desta provocassem no senhor Onofre uma fome indefinida.

Cedeu a mulher em contabilizar mais um quarto e um hóspede na pensão e cedeu o senhor Onofre em estimar a vetusta memória das tardes de outros tempos, evitando devassar os objectos que a mulher lhe enumerou, listou e obrigou a decorar. Estavam-lhe proibidos, por esta ordem de importância, a rede, o canapé, o violão, a escarradeira e o artefacto insondável. Mas tudo aquilo o senhor Onofre abominava e esquecia. Contabilizava no rol das permissões a única coisa que lhe era importante, a razão da sua escolha: a enorme vidraça do primeiro andar.

Hoje, como todos os últimos dias, o senhor Onofre começa a sessão televisiva às dez em ponto e terminá-la-á por volta das zero horas. Encosta a testa à vidraça e prepara-se para o serão. A rua estreita, o baixo pé-direito do piso térreo da pensão e as trinta polegadas dos televisores coloridos na montra da loja em frente, concorrem para que o hóspede não tenha de se lamentar por ter faltado persistentemente às consultas do oftalmologista. Está feliz. Não saberia explicar porquê, se alguém houvesse que lhe perguntasse. Ele próprio não se pergunta. Limita-se a estar feliz, sorrindo no canto da boca. Vê televisão através da marquise e usufrui das possibilidades sem critério. São três os televisores, cada um sintonizado em seu canal. O senhor Onofre olha ora um, ora outro ecrã, passando os dedos pelo queixo, tamborilando no peitoril, cruzando e descruzando as pernas, até que o sono lhe venha, ou até que os temporizadores dos aparelhos e das luzes da montra cumpram a sua função e façam apagar-se aquele palco do outro lado da rua. O senhor Onofre sabe que, quando a noite chegar aos ecrãs, dormirá um sono sem sonhos e que amanhã acordará com um sentimento de incerta melancolia, que não chega a ser tristeza. Deambulará todo o dia pelos arredores da vila, sem destino certo. A noite encontrá-lo-á, de novo, a subir as escadas da Baleia Azul, sorrindo no canto da boca.

Isto se os boatos não se confirmarem. Se o lojista não tiver cedido às calúnias da dona da pensão; se não tiver gritado que está farto daquela vizinhança, que vai abrir a loja noutro lado, assim como assim nunca teve grandes lucros ali; se, ao levantar com dedos seguros as lâminas do estore, o senhor Onofre não vir uma montra vazia, apagada.

Se a carrinha de mudanças estacionar à porta da loja, o senhor Onofre subirá as escadas da pensão, pontualmente à hora do costume, mas sem sorrir no canto da boca. Entrará no quarto, tropeçando, por esta ordem, na rede, no canapé, no violão, na escarradeira e no artefacto metálico. Sondará a utilidade deste último segurando-o com ambas as mãos e erguendo ao tecto a base de mármore. Fará ranger os seus passos no soalho envelhecido do corredor. Invadirá o quarto onde a velha beata se debate nos sonhos com o seu avantajado pescador. Contemplar-lhe-á o rosto bulímico antes do impacto. Sentirá como o mármore que tem nas mãos é muito mais duro do que os ossos do crânio da velha. Comprovará, enquanto arrasta as fartas carnes da mulher, que a idade não lhe tirou, a ele, as forças. Descerá a rua que a montra da loja em frente já não iluminará. Subirá os degraus do terraço do farol, onde a velha perderá os sapatos. Ouvirá o baque do corpo pesado a cair na água do outro lado do paredão. Perscrutará, em silêncio, a linha onde a noite se une ao mar. Sentirá falta de um horizonte.

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As obras terminaram. Pontualmente às sete da tarde, o senhor Onofre estaciona o seu utilitário cinzento à margem da praça do museu, em frente à nova loja de electrodomésticos. Sorri no canto da boca.