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Operação ClichéNeste sonho tenho bigode iraquiano e traje militar verde azeitona. O exército inimigo está às portas, mas eu reino ainda no império. Hoje reúno com os comandantes das brigadas culturais, vamos afinar estratégias de propaganda.Perfilam-se à volta da mesa os generais da cultura, clones uns dos outros, todos igualmente esverdeados. Expõem-me os jornais a medo, aguardam o meu superior escrutínio. Inspecciono o suplemento produzido pelas tropas regulamentares. E leio: «O mais bem guardado segredo da pop». Custa-me a crer que se tenham atrevido a usar esse «estafado lugar comum», já o tinha proibido. Mas ousaram desobedecer-me, e mais à frente pior, descubro as duas mais graves violações ao index: o «inenarrável» e o «incontornável». Executo o responsável? Hesito, neste sonho sou complacente. Se não encontrar referências à «linha da frente» ou à «novíssima geração» sou capaz de poupá-lo. Viro a página, continuo a pesquisa. «O circo está montado», garantem-me. «Eis o retrato», «eis a estreia», «eis a antologia»... Sorrio pesaroso para as câmaras. Puxo da minha Uzi, modelo israelita comprado à Síria, e despejo o pente — 35 balázios — na cabeça pós-moderna do respectivo general. Ainda está ali a sangrar, caído para a frente. Avanço para o suplemento cultural do jornal concorrente, este é produzido pelas milícias populares, o que explica o papel amarelado. E da mesma semana, não tenho dúvidas, os artigos são iguais. Muda só o estilo, neste vigora «outro registo», mais bucólico. Vêem-se «paisagens sonoras», na «geografia dos afectos» celebram-se os reencontros, «um actor é isto», «ele está de volta», «ele está de regresso», Alá seja louvado. Olho desconsolado a Uzi, já sem balas. Com um suspiro pego numa granada, enfio-a na boca do oficial, removo a espoleta, assisto à «monumental estridência» de mais uma cabeça a rebentar. Estou a ficar sem generais, não sei se lamento. Talvez o comandante em chefe da Guarda Republicana me dê uma alegria, afinal é o editor do jornal das elites. Nas páginas dele somo 87 «obras menores», 427 «pérolas da música pop»; 74 «vozes poéticas» (metade «viscerais», metade «intimistas»), e 24 «hélas!». Já só me resta a bazuca, tinha-a preparada debaixo da mesa. Cofio o bigode pensativo, aperto distraidamente o gatilho, remeto o editor para os céus de Bagdade. Desalentado sacudo os suplementos que sobram, as páginas da cultura e as revistas dominicais. Caem dezenas de «novos paradigmas», «novas vagas» e «vagas de fundo», e até as proibidíssimas «novas revelações». Saltam «demenciais trovadores» em barda, «mosaicos da pop» e «mantas de retalhos cinematográficas» são aos milhares, infinitas as «novas estrelas no firmamento», «pulsações jazzísticas», «arrojadas dinâmicas rítmicas» e «excepcionais safras». Safra! Contemplo os generais sobreviventes, vasculho os bolsos à procura de uma armazinha química, biológica, qualquer coisa. Afinal nunca existiram, uma pena, saio de ombros curvados. E a caminho do bunker, na limusina, telefono ao amigo americano: Venha daí esse «fogo amigo», imploro, «danos colaterais», por favor. E que no final, insisto, não restem quaisquer «bolsas de resistência». JP |
A carta de Mia Couto ao presidente BushO e-mail assim o anunciava, em maiúsculas azuis e gordas: "Fundamental — a carta de Mia Couto ao Presidente Bush."Infelizmente, rápido surgiu, rápido sumiu. Relampejei um S.O.S. para o remetente, ana.luz@mixmail.com, mas veio devolvido por ser aí desconhecida a pessoa em questão. Forte contrariedade para quem, como eu, aprecia as tomadas de posição e colecciona declarações fundamentais expostas em carta, discurso, ouvidas ao acaso na rua, na televisão, ou em conversa. Tenho dezenas. De Manuel Alegre sobre o 25 de Abril, de Agustina Bessa-Luís a propósito de como bebia chá a fina-flor portuense, uma de Manoel de Oliveira sobre a pobreza de conteúdo do cinema americano. Uma que há anos ouvi a um cónego da Sé de Miranda, essa fundamental e sublime, acerca das virtudes terapêuticas do whisky. De Eduardo Prado Coelho ("Sempre este homem fatal!") possuo quatro. Da Çãozinha, que serve na "Petisqueira de Alcântara", guardo uma, gostosamente popular, a respeito da inconstância das paixões no meio fadista. Um ex-presidente da Câmara de Estremoz contribuiu com duas: sobre a preguiça inata dos "pretinhos" e acerca das invejas na política. Da fabulosa Lili Caneças tenho aquela, filosófica, em que ela comenta a lentidão do tempo. E assim por diante. A todas essas e outras declarações fundamentais eu gostaria de juntar a do famoso escritor moçambicano. Porque indaguei, e garantiram-me, que tanto a prosa das suas obras — que para minha vergonha desconheço — como o teor das afirmações que com frequência faz em público — mas infelizmente nunca ouvi — se distinguem por uma sóbria fundamentalidade. Informei-me se era conhecido o conteúdo da sua missiva ao presidente americano, mas responderam-me com evasivas. Uma alma traiçoeira aventou mesmo que podia ser invenção, manha de relações públicas. Não creio. Tanto mais que existe o precedente de outros grandes escritores — por exemplo Saramago, García Márquez... — costumarem trocar ideias com chefes de Estado. Pela minha parte estou convencido de que Mia Couto se mostrou crítico e reservado quanto à política externa de George W. Bush. Talvez, mas isto é já suposição, tendo mesmo ponderado um futuro arrefecimento da tradicional amizade moçambicano-americana. O caso é que, como cidadão, considero imprescindível pôr-me ao corrente desse documento; simultaneamente, como coleccionador, lamento a falta de tão importante peça. Daí este apelo a Mia Couto, à fugaz ana.luz@mixmail.com ou a quem o tiver lido: mandem-me o texto. JRC |
A Arte da Hipocrisia1. Guernica, de Pablo Picasso, representa o caos, o sofrimento, o horror que uma guerra pode provocar. O seu simbolismo ultrapassou o tristemente célebre resultado do bombardeamento pela aviação alemã da localidade basca. Terá sido essa carga simbólica que levou à colocação do quadro na sala onde se reúne o Conselho de Segurança da ONU.Mas os símbolos também podem ser inconvenientes. Quando o Conselho se encontrou para ponderar a investida contra o Iraque, consta que se cobriu o quadro com um enorme pano azul (cor das Nações Unidas). A ideia seria evitar inadequados constrangimentos que pudessem advir de tão expressiva pintura. Não fosse dar-se o caso de ainda haver corações sensíveis. À arte. 2. No Iraque, às quartas-feiras, antes das execuções, os carrascos pediam autorização aos condenados para o cumprimento da pena. Àqueles que autorizassem, era-lhes oferecida água e facultada a leitura de alguns versículos do Corão — não fossem morrer de sede ou em pecado mortal antes do fuzilamento. Aos outros, mal-agradecidos, era-lhes apenas concedida uma morte sem requintes. 3. Nisto da hipocrisia, os orientais estão muito mais avançados. De futuro, escusa o Conselho de Segurança de ocultar a obra de Picasso, que até é pecado. O problema das almas sensíveis resolve-se pedindo autorização expressa ao país a invadir. Em caso afirmativo, fornece-se whisky a rodos e uma colectânea dos artigos de Luís Delgado — e invade-se à mesma. Em caso de recusa, leva-se Guernica à risca: caos, sofrimento e horror. Com arte. CC
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